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segunda-feira, 8 de abril de 2019

O 31 de Março que Eu Vivi.

Já que vejo muitas pessoas fazendo  recordações e dando suas opiniões sobre os eventos de 31 de março de 1964, também me sinto no direito de fazer o mesmo, já que eu também vivenciei esta época e tenho muitas recordações pessoais desse tempo.  Antes, um esclarecimento.  Não obstante ter nascido na Inglaterra e ser detentor de passaporte britânico, sou brasileiro naturalizado, detentor de passaporte brasileiro e título de eleitor, portanto credenciado a emitir opiniões sobre questões políticas brasileiras.

Cheguei no Brasil no final de 1960, logo após a eleição de Jânio Quadros para o cargo de Presidente da República, cargo que ele viria a assumir em 31 de janeiro de 1961.  O Jânio era um figura estranha e excêntrica, tanto na aparência como no comportamento, mas mesmo assim seu repentino renuncio em agosto de 1961 - apenas sete meses após ter assumido a Presidência - pegou o país de surpresa e abriu uma grave crise politica pois nem os militares, nem boa parte da população queria ver o seu vice, João Goulart, um confessado "socialista", que muitos identificaram como "comunista", assumir a presidência.  Também não ajudou o fato que Goulart se encontrar em visita oficial à China comunista de Mao Tsé-Tung no momento da renuncia do Jânio, e havia grupos no Congresso Nacional que se opuserem ao seu regresso ao país.  Goulart era apoiado por seu cunhado Leonel Brizola, Governador do Rio Grande do Sul e parte das Forças Armadas, e foi através de Porto Alegre que Goulart voltou ao país. Por um breve período parecia que o país caminhava para uma guerra civil, mas a crise foi contornada com a introdução do parlamentarismo, com o poder executivo na mão de um primeiro-ministro enquanto Goulart assumiu como Presidente, com poderes bastante reduzidos.  A emenda constitucional que introduziu o parlamentarismo incluía uma clausula prevendo um plebiscito que seria realizado em 1965 para decidir se o parlamentarismo seria continuado no próximo mandato presidencial, ou se reverteria para Presidencialismo.

Na época eu tinha 15 anos de idade e estudava na Escola Americana, que naquele tempo era localizado no final da Avenida General Urquiza no Leblon.  Me lembro bem das orientações que os alunos recebiam para manter um "low-profile" nas suas deslocações entre suas casas e a escola, pois estávamos no auge da guerra fria entre os Estados Unidos e seus aliados de um lado, e a União Soviética do outro lado, e havia um clima anti-americano, pelo menos entre os adeptos do Jango, como João Goulart era conhecido. Me lembro do ano de 1962 como um ano de extrema agitação política e um crescente polarização entre a direita e a esquerda, com greves e manifestações ocorrendo a toda hora.  No meio disso, Goulart conseguiu antecipar o plebiscito sobre o Presidencialismo/Parlamentarismo, previsto para acontecer somente em 1965 para janeiro de 1963.  No plebiscito, os eleitores tinham que escolher entre o Sim (a favor do restabelecimento do Presidencialismo), ou Não (contra).  A campanha a favor do Sim foi maciça com todas os muros e postes da cidade totalmente tomadas com a propaganda eleitoral.  No fim, o voto pelo Sim obteve mais de 80% dos votos, e o país voltou a ser regido pelo Presidencialismo, com João Goulart assumindo integralmente os poderes de um Presidente.

Apesar disso, os greves e a agitação social não cessou.  Como Goulart não tinha um base de apoio no Congresso, ele recorria a uma postura populista que mantinha os sindicatos e as classes populares em permanente mobilização para pressionar o Congresso para aprovar as reformas que pretendia introduzir.  Com isso ele abandonou o programa de austeridade econômico que tinha sido introduzido com o objetivo de frear a inflação.  Medidas populares como o aumento do salário mínimo e a introdução do 13º salário contribuírem para aumentar ainda mais a inflação, ao mesmo tempo a economia crescia cada vez menos.  Esse é o quadro que me lembro dos anos de 1962 e 1963.  A tudo isso eu assistia de camarote, mas não apenas como um típico morador da zona sul carioca.  Por sorte das circunstâncias  a minha visão da realidade brasileira foi um pouco mais abrangente da maioria. Isso porque um dos meus melhores amigos na Escola Americana era um menino brasileiro, chamado Joaquim.  Nós dois tínhamos em comum um amor por futebol e fazíamos parte do time de futebol de salão da escola.  Aliás, foi o primeiro time de futebol de salão a ser formado pela Escola Americana.  Faziam parte, além de Joaquim e eu, um alemão, um húngaro, um chinês, um americano, e mais dois ou três brasileiros.  Era um timaço, ........mas isso já é outra história!

Voltando ao meu amigo Joaquim.  Ele havia nascido num família pobre na baixada fluminense, e quando pequeno ganhava alguns trocados vendendo amendoim nos trens da Central, quando acabou sendo "adotado" por um casal de americanos residentes no Rio.  Os americanos levaram Joaquim para estudar nos Estados Unidos por um período de quatro anos, após o qual regressaram ao Brasil, e Joaquim foi estudar na Escola Americana.  Ocorre que Joaquim, embora morasse com os "pais" americanos num confortável apartamento na Urca, também mantinha um contato estreita com sua mãe biológica, que morava numa casa muito simples em Mesquita, que naquele tempo era um sub-distrito do município de Nova Iguaçu.  Como eu e Joaquim nos tornamos grandes amigos, fui muitas vezes à Mesquita, (andando sempre nos trens da Central)  onde passei várias finais de semana, visitando os familiares e amigos do Joaquim.  Era muito divertido pois normalmente jogávamos futebol pela manhã e depois bebíamos cerveja com os garotos, e a noite frequentavas alguma festa onde fazíamos algum sucesso com as garotas locais, eu, porque falava português com sotaque de gringo, e sabia traduzir para português as letras dos sucessos americanos do momento, e Joaquim, até porque já era um especie de celebridade em Mesquita.  Além de visitar Mesquita, as vezes íamos para Volta Redonda, onde o irmão do Joaquim trabalhava na siderurgia nacional.  O contraste entre Mesquita e Volta Redonda era enorme.  Enquanto Mesquita era um local muito pobre, sem ruas asfaltadas, e casas muito simples, Volta Redonda mais parecia uma cidade americana do interior, com boas casas, e ruas asfaltadas e arborizadas.  Parecia ser uma cidade totalmente planejada.

Para mim, a experiencia de poder conviver, mesmo por pouco tempo, com realidades muito distantes da realidade da zona sul carioca foi de grande valia, e as recordações que tenho dos anos de 1962 e 1963  misturam experiencias vividas tanto na zona sul carioca como na baixada fluminense e Volta Redondo, o que  permitiu uma ampliação da minha visão da realidade brasileira.  Essa vivencia brasileira foi interrompida em agosto de 1963, quando voltei para Inglaterra pois meus pais queriam que eu completasse meus estudos secundários no sistema britânico, e só retornei ao Brasil em outubro de 1964.  Com isso, perdi completamente os incidentes finais que resultaram nos acontecimentos de 31 de março de 1964, e a deposição do Presidente João Goulart.  Mesmo assim, não foi com nenhuma surpresa que eu li nos jornais da Inglaterra as notícias da deposição do Presidente.  Para quem havia acompanhado de perto os acontecimentos a partir da renuncia do Jânio em 1961 era quase um desfecho inevitável.  O crescimento do PIB em 1963 havia despencado para apenas 0,6%, enquanto a inflação atingiu 79,9%. O quadro abaixo demonstra a evolução do crescimento do PIB e da inflação desde 1960, e deixa claro o colapso da economia durante o período.

                                Ano                      PIB                 Inflação
                               1960                     +9,4%               30,4%
                               1961                     +8,6%               47,8%
                               1962                     +6,6%               51,6%
                               1963                     +0,6%               79,9%

As tentativas de reforma cada vez mais radicais da dupla Goulart/Brizola, expostas de uma forma clara no comício da Central no Rio de Janeiro em 13 de março que incluía o incentivo ao rompimento da hierarquia dentro das Forças Armadas, convenceu boa parte da classe média que o país estava à beira de um golpe que tinha como objetivo a instalação de uma revolução socialista no país.  Esta ameaça foi respondida por um serie de demonstrações chamadas de Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que pediam o afastamento de Goulart.  A primeira dessas marchas foi realizada em São Paulo em 19 de março, mas ao todo foram realizadas 49 marchas em todo o Brasil, se estendendo até o mês de junho.  Após a derrubada do Goulart em 31/03, as marchas tomaram o nome de Marcha da Vitória.  A marcha realizada no Rio de Janeiro em 2 de abril reuniu mais de um milhão de pessoas.

O Brasil que encontrei em outubro de 1964 parecia um outro país comparado com aquele eu havia deixado apenas 15 meses antes.  As ruas estavam bem mais calmas e não havia mais a agitação política que antes existia, e pelo menos na zona sul carioca, havia um clima de otimismo no futuro do país, já que a ameaça socialista havia sido afastada.  Ao refletir sobre  os eventos que ocorrerem 55 anos atrás, não posso deixar de registrar o fato que a derrubada do Goulart foi maciçamente apoiada por grande parte da população brasileira, a começar pela classe média, pelos empresários, pela Igreja Católica, pelos políticos, pela imprensa, e pelas Forças Armadas.  É verdade, pelas elites, como muitos afirmam.  Mas também deve se registrar que a derrubada do Goulart não encontrou nenhuma grande resistência popular.  A resistência que houve foi esporádica e eventual e em nenhum momento envolveu as classes populares.  Menos de um ano após a derrubada de Goulart, eu comecei a minha jornada em hotelaria quando entrei em Hotéis Othon como "trainee". A primeira etapa do programa de "trainee" consistia em passar dois anos num hotel (o Leme Palace) trabalhando em praticamente todas as funções existentes, começando pela cozinha, e estando sujeito as mesmas normas de qualquer outro empregado, sem nenhuma regalia ou tratamento diferenciado. A principal vantagem dessa dura experiência foi que me deu uma visão clara do negócio, e do mundo, visto através da ótica dos funcionários subalternos, o que foi de grande valia mais tarde para o desenvolvimento da minha carreira. Mas o eu quero enfatizar aqui é que em nenhum momento senti, por parte dos trabalhadores mais humildes, qualquer sentimento de insatisfação pelo final do governo Goulart.  Pelo contrário, a grande maioria manifestava satisfação pelo fim da instabilidade vivida nos anos anteriores.

Para concluir, quero lembrar que meus comentários aqui expostos são baseados em recordações pessoais de quem viveu esta época.  Não sou dono da verdade e politicamente não sou da esquerda, e também não sou da direita. Já votei no PT e já votei no PSDB.  Procuro votar no que eu acho melhor para o país naquele momento.  Para mim, o movimento de 31 de março de 1964 foi uma consequência direta da renuncia do Jânio em agosto de 1961, e encerrou uma  etapa de grande agitação politica, ideológica, e social, que teria terminada de forma muito pior se fosse permitido continuar. Neste sentido, eu me coloco ao lado daqueles que considerem o movimento de 31 de março como um contra-golpe ao golpe pretendido por Goulart e seus seguidores. Pode se argumentar que o processo eleitoral existente em 1960, que permitiu uma eleição separada para vice-Presidente e consequentemente a formação de uma chapa totalmente antagônica foi o responsável pelos eventos que se sucederem, mas a renúncia do Jânio foi o estopim que deu inicio ao processo.  Na minha opinião, a tentativa de culpar, e até demonizar as Forças Armadas pelos eventos de 31 de março é equivocada e injusta.  O mínimo que se deve reconhecer é que o movimento que levou à deposição do Goulart em 31 de março foi um movimento cívico/clérigo/politico/militar, além de ser apoiado por grande parte da imprensa brasileira, e diante das opções existentes na época, benéfico para o futuro da nação.

O que veio a acontecer depois de 31 de março,  principalmente após a decretação do AI-5 em dezembro de 1968 é outra história, e deve ser tratada como tal.  A intenção inicial dos perpetradores do movimento de 31 de março era de realizar eleições presidenciais em 1965.  Isso acabou não acontecendo.  Os excelentes livros do Elio Gaspari - leitura obrigatória para quem entender melhor a história recente do Brasil - conta em detalhes o desenrolar de eventos que resultaram no decreto do AI-5, assim como os eventos subsequentes.  Mas, como já afirmei aqui, isto é uma história para um outro dia. Minha intenção nesse relato é meramente recordar as minhas experiências relacionadas ao movimento de 31 de março de 1964.

quinta-feira, 28 de março de 2019

O Fla x Flu e o Saudosísmo


Faz tempo que não frequento o Maracanã.  Acho que a última vez que lá estive foi durante os Jogos Olímpicos, quando assisti um jogo de futebol feminino.   Nem me lembro a última vez que assisti um jogo do Flamengo, mas deve fazer pelo menos cinco anos.  Nem pela televisão tenho assistido os jogos do Flamengo, com exceção de um ou outro jogo que eventualmente passa num canal de TV aberto, já que minha assinatura do Futebol Premier foi cancelada faz tempo.

Foi então, quase por acaso, que ontem deparei com um Fla x Flu na Globo, em horário nobre.  Um jogo válido pela semi-final da Taça Rio, e portanto um jogo decisivo com ambos os times escalando seus melhores jogadores.  O empate favorecia o Fluminense, portanto Flamengo precisaria ganhar o jogo para se classificar.  Sentei na poltrona, na expectativa de assistir um grande jogo à altura das tradições dos Fla x Flu's do passado.  Isso é um problema para os mais velhos,  a capacidade de ainda recordar, com saudosismo, os craques e jogos épicos do passado e a comparação com o presente é inevitável.  Lamentavelmente, o que eu assisti ontem foi um festival de péssimo futebol, de erros de arbitragem, erros no uso do VAR, de violência entre os jogadores, de indisciplina generalizada, tanto dos jogadores como das comissões técnicas de ambos os times.  Em suma, foi um espetáculo da pior qualidade, que não me deixou com a menor vontade de voltar a frequentar o Maracanã.  É comum hoje ouvir falar da decadência do futebol brasileiro, e do carioca em particular, e quem quisesse ter uma prova disso bastava ter assistido ao jogo de ontem.

No fim, o Flamengo venceu o jogo por 2x1 e classificou para o final, graças a um gol de pênalti marcado aos 47 minutos do segundo tempo, no que deve entrar na história como um dos mais absurdos e desnecessários pênaltis cometidos por um jogador do Fluminense em toda a sua história.  Não deu nem para comemorar a vitória, apenas lamentar o triste espetáculo, mais triste ainda para aqueles, como eu, que já presenciaram  coisa bem melhor.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Eu e o Maracanã


A primeira vez que fui no Maracanã foi em 1962, quando fui assistir a partida entre Santos e Benfica no primeiro jogo da Taça Intercontinental, como era conhecido naquela época, e que hoje corresponde ao Mundial de Clubes.  Foi um jogaço.  De um lado Santos de Pelé e Coutinho e Pepe e tantos outros craques, e do outro Benfica, do genial Eusébio.  Santos venceu o jogo pelo placar de 3 x 2, mas no segundo jogo, 3 semanas depois em Lisboa, Santos venceu novamente, dessa vez pelo placar de 5 x 1, sagrando assim campeão mundial de clubes.

Logo depois, assisti meu primeiro jogo do Flamengo no Maracanã, uma vitória de 2x0 sobre Bangu, e pronto, como num passo de mágico, eu havia me tornado rubro-negro.  Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Dali, até o final da década de '90, calculo ter ido ao Maracanã mais de mil vezes.  Não perdia um jogo sequer do Mengão.  Podia ser uma terça-feira a noite contra Olaria, ou um Domingo contra Vasco, não importava, eu estava lá, com camisa, bandeira, e a almofada (rubro-negra) que toda frequentador assídua da arquibancada levava ao estádio..

Fora os jogos do Flamengo, também comparecia ao Maracanã sempre que a seleção brasileira lá jogava, incluindo nisso a serie de 3 jogos em que a seleção jogava em casa, contra Colombia, Venezuela, e Paraguai, respectivamente,  para a classificação  para a Copa de 1970.  O último desses jogos foi contra Paraguai, e a seleção necessitavam apenas empatar para garantir a vaga para a Copa.
O jogo estava marcada para começar as 16 horas.  Saí de casa no Leblon, junto com quatro amigos, às 9.30 da manhã e chegamos no Maracanã por volta das 10 horas e conseguimos entrar no estacionamento que naquele tempo ainda existia dentro do complexo do Maracanã, e ficamos esperando as roletas abrirem as 11 horas para dar acesso à arquibancada, conforme a previsão.  Por sorte nossa, a nossa roleta, vindo do estacionamento, abriu alguns instantes antes das roletas principais.  Nesse dia, o acesso à arquibancada era somente pelo anel superior e subi as duas rampas num pique impressionante, e fui a primeira pessoa a acessar a arquibancada.  Escolhi uma posição exatamente na linha intermediária do campo e sentei.  Eram 11 horas e cinco minutos.  Ao meio-dia, se levantasse, não sentaria mais, pôs nessa altura, além de estamos apertadas feitos sardinhas na lata, tinha pessoas nos meus pés e outras nas minhas costas.  Como não tinha nada a fazer, nem nada para assistir, pois não houve jogo preliminar, a diversão da torcida era de dar empurrões nos retardatários que tentavam se equilibrar entre os degraus enquanto buscavam um local para sentar, e vê-los rolar por cima das cabeças de quem já estava sentado.  Considero um pequeno milagre que não morreu ninguém.  Oficialmente, teve 195.000 pessoas presentes (183.000 pagantes, um recorde de pagantes), e Brasil ganhou o jogo por 1x0, gol de Pelé.

Apesar da confusão daquele dia, não foi essa o maior sufoco que passei  no Maracanã.  A pior situação que enfrentei foi na tentativa de comprar ingressos pra um Flamengo x Vasco, no dia 1º de maio de 1968.  Como se sabe, o ano de 1968 foi um ano tumultuado em vários países do mundo, como os protestos dos estudantes em Paris e o movimento contra a guerra do Vietnam nos Estados Unidos, para citar os mais conhecidos. No Brasil, o governo militar também estava pressionado por um crescente movimento de protesto estudantil contra a ditadura, e estava sendo organizado uma grande manifestação no feriado de 1º de maio - o Dia do Trabalhador.  Supostamente para esvaziar a manifestação, foi programado um Flamengo x Vasco, para o mesmo dia.  Entre ir para a manifestação ou ir para o Maracanã, eu escolhi o Maracanã,  Chegando lá, como de hábito, duas horas antes da partida começar, encontrei um enorme fila nas bilheterias para comprar ingressos para a arquibancada.  Mesmo assim, entrei na fila, que quase não andava.  Enquanto isso, não parava de chegar gente, com todo mundo empurrando quem estava na frente.  Após um tempo, correu a notícia que as bilheterias havia fechadas pois os ingressos haviam esgotados.  Só que ninguém conseguia mexer, pois cada vez chegava mais gente  e as pessoas mais a frente estavam sendo esmagados contra as grades da bilheteria.  Várias pessoas começaram a ficar desesperadas e passar mal, mas ninguém conseguia se mexer, com a multidão atrás empurrando para frente e as pessoas mais a frente ficando cada vez mais difícil respirar.  Comecei a achar que eu iria morrer asfixiado mas quando a situação estava ficando muito feia, apareceu dois PM's da cavalaria que meterem os cavalos por cima da multidão, que logo se dispersou, evitando assim o esmagamento.  Saí de lá com as pernas bambas mas ainda fui procurar ingressos para o Geral, mas esses também estavam esgotados.  Foi a única vez que fui ao Maracanã e não consegui entrar no estádio.

Em 1971 assisti dois eventos notáveis, a despedida do Pelé da seleção brasileira num jogo amistoso contra Yugoslavia (o jogo terminou 2x2), e a estreia do Zico no time principal do Flamengo.  Ainda levou alguns anos para o garoto franzino se firmar como titular do Flamengo mas a torcida toda sabia que tínhamos uma joia rara.  De fato, quem teve, como eu, o privilegio de acompanhar a carreira do Zico no Flamengo ao longo das décadas de '70 e '80 sabe que desfrutou de tudo que uma torcida pode almejar na vida.  Foi uma época gloriosa, com grandes craques, grandes jogos, e grandes conquistas.  Quem viu, viu, quem não viu, não verá nunca mais, isso que é a realidade.

Nos anos '90, continuei frequentando o Maracanã, mas nesta altura eu já havia migrado para as cadeiras especiais, e até a tribuna honra, pois de vez em quando acompanhava visitantes VIP's ao estádio.  Eu estava lá  em 1992 quando Flamengo conquistou mais um campeonato nacional, e assisti, horrorizado, quando rompeu uma parte da grade da arquibancada onde ficava a torcida do Flamengo e dezenas de rubro-negros caírem nas cadeiras embaixo.  A culpa do acidente foi das autoridades responsáveis pelo estádio pois haviam divididos o espaço da arquibancada meio a meio entre as torcidas do Flamengo e Botafogo, quando a torcida do Flamengo é no mínimo três vezes maior que a do Botafogo.  Resultado, os flamenguistas estavam todos espremidos enquanto o lado do Botafogo sobrava espaços vazios.

Já no final da década de '90 o Maracanã começou a passar por uma serie de reformas de modernização, e que consumiu mais de R$2 bilhões de dinheiro público, que resultou no estádio que temos hoje, que  na minha opinião, não chega aos pés do original.  A retirada do Geral tirou um espaço popular que contribuía muito para a alma do estádio, além de proporcionar a oportunidade de pessoas de baixa renda ter acesso aos jogos por preços razoáveis.  Depois a colocação de cadeiras na arquibancada reduziu muito a capacidade do estádio.  Outro fator negativo, ao meu ver, foi o crescimento do espaço das cadeiras especiais, "invadindo" o espaço que antes pertencia às arquibancadas.  O resultado dessa modernização é que o estádio hoje tem capacidade para apenas 78.000 espectadores, os ingressos são muitíssimo mais caros, e o ambiente eletrizante que existia sempre que havia um jogo 'clássico" não existe mais.

O que me motivou a fazer estas recordações foi a confusão extrema que testemunhamos neste último Domingo, por ocasião do final da Taça Guanabara entre Fluminense e Vasco da Gama, e tudo provocado por uma discussão idiota sobre qual torcida deverá ficar posicionada à direita dos cabines de rádio.  Ora, até o Sobrenatural de Almeida sabe que o lugar à direita dos cabines de rádio pertence ao Vasco, assim como o espaço à esquerda pertence ao Flamengo.  É assim desde sempre, desde que o mundo é mundo, ou melhor, desde que o Maracanã é Maracanã.  Fluminense, por sua vez, fica à esquerda, mas saí para a direita quando enfrenta Flamengo, e Botafogo fica à direita, mas sai para a esquerda quando enfrenta Vasco.  Tudo muito fácil, sem problemas.  Não me venham dizer que o Fluminense tem contrato desde 2013 com os concessionários do estádio para ficar à direita dos cabines do rádio quando tem mando de campo, e outros blá blá blá.  Isso é um desrespeito às tradições do Estádio, uma burrice sem tamanho, e um convite ao caos que acabamos de testemunhar domingo passado.  Não gosto do Vasco, como também não gosto do Fluminense (apesar de ter netos de ambos esses times), mas fiquei feliz que Vasco venceu o jogo para Fluminense deixar de ser besta, e voltar para seu devido lugar.  E para finalizar, estou inteiramente a favor do projeto de transformar o espaço atrás dos gols em áreas que podem ficar de pé, desde que pratica preços populares.  Vamos trazer o povo de volta ao Maracanã e, quem sabe, reviver a alegria de antigamente!
!






quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Ricardo Boechat e o Livro do Copa




Lamentavelmente, o Brasil acaba de perder um dos seus grandes jornalistas e apresentadores na pessoa do Ricardo Boechat, vitima do trágico acidente de helicóptero ante-ontem em São Paulo.  O trajetória de sucesso do Boechat como jornalista e apresentador de rádio e televisão é amplamente conhecido e o impacto de sua morte trágica e prematura é lamentada por milhões de pessoas no Brasil inteiro.  Sem dúvida fará muita falta para muita gente, sem falar de sua própria família,  que é onde certamente sua ausência será ainda mais sentida.

Como milhões de outras pessoas, eu também vou sentir muito a sua falta.  Conheço Ricardo há mais de 30 anos, desde que ele era responsável pela coluna do Swann no Jornal Globo, e acompanho seu trajetória de sucesso desde este tempo.  O estilo combativo e questionador do Ricardo, e até sua rebeldia, eram marcas características de sua personalidade, como eram também sua simplicidade, generosidade, e grande humanidade.  Tinha uma grande sensibilidade para as injustiças sociais existentes no Brasil e lutava todos os dias para tornar Brasil um país melhor.  É por isso que ele fará tanta falta, para tantas pessoas.

De uma certa forma, é até irônico que Ricardo começou sua carreira vitoriosa de jornalista no colunismo social, pois o mundo da elite carioca frequentadora das colunas sociais no início da década de '70 era um mundo totalmente antagônica ao mundo vivido por Ricardo, naquela época um membro de carteirinha e tudo do PCdoB.  Talvez por isso, que Ricardo é creditado como sendo um dos responsáveis pela transformação das colunas sociais em espaços que apenas tratavam de relatar as historias da elite carioca para um espaço para publicar assuntos de interesse geral da cidade.

De qualquer forma, foi no Copacabana Palace, no início da década de '70, que Ricardo deu seus primeiros passos no jornalismo.  Contratado pelo hotel como Assessor de Imprensa, após recomendação do então ícone do colunismo, Ibrahim Sued, que fazia da piscina do Copacabana Palace seu quartel-general, o trabalho de Ricardo era de garimpar notícias sobre as celebridades que se hospedavam no hotel para passar para a coluna social. Não demorou muito para que Ricardo passasse a assessorar diretamente Ibrahim, e com quem colaborou por 13 anos, ..."and the rest is history," como se diz.  O certo é, por causa desse início de carreira, o Ricardo conhecia muito bem os bastidores do Copacabana Palace e sempre demonstrou um carinho muito especial, tanto para o hotel, como para seus colaboradores.

Anos mais tarde, já na década de '90, estávamos às voltas com a idéia de produzir um livro relatando a história única do Copacabana Palace.  Para dar o início  ao livro, o Gerente de Comunicações do hotel na época, o jornalista Eugênio Lyra Filho, e a RP do Hotel, Claudia Fialho, auxiliados por uma equipe de pesquisadores, haviam reunida uma extensa documentação com as histórias do passado.  A ideia inicial foi que o texto do livro seria escrito por Eugênio Lyra,  mas infelizmente Eugênio veio a falecer após uma cirugia cardíaca, e o projeto de escrever o livro ficou paralisado por algum tempo.  

Foi por ocasião da celebração do aniversário de 75 anos do hotel, em 1998, que o projeto de publicar o livro foi retomado.  Não me lembro exatamente como, mas provavelmente por sugestão de Claudia Fialho, autora de muitas boas idéias, surgiu a idéia de convidar Ricardo Boechat para escrever o livro.     Nesta altura, Ricardo já era um jornalista consagrado, e super ocupado, mas mesmo assim, após muito trabalho de convencimento, concordou em escrever o livro.

Foi a partir desse momento que passei a ter um contato quase diário com Ricardo, ao longo de vários meses, na medida que o texto do livro ia tomando forma,  e a minha profunda admiração pela pessoa do Ricardo vem desse tempo.  O trabalho de desenvolver o texto foi exaustivo, pois reunir milhares de pequenas histórias num texto coerente e de agradável leitura só seria possível para um grande jornalista.  O resultado do livro, que é um relato não apenas das histórias do hotel, mas também do próprio bairro de Copacabana, assim como da cidade do Rio de Janeiro na sua época mais gloriosa é um testemunho da grande competência do Ricardo, e que ficará conosco para sempre.

Depois do sucesso da primeira edição do livro, foram feitas mais duas edições para comemorar respectivamente os aniversários de 80 e 85 anos do hotel.  Em ambas essas edições o texto que atualizava a história do hotel foi desenvolvido com maestria por Ricardo, na última relatando com detalhes aspectos relacionados à hospedagem dos Rolling Stones por ocasião do épico show na praia de Copacabana em 2006.

Agora, leio nos jornais que a direção do Copacabana Palace pretende homenagear Ricardo inaugurando uma fotografia sua na galeria de fotos de celebridades que já se hospedarem no hotel.  É uma homenagem justa, e mais que merecida, embora Ricardo seria a primeira pessoa a rejeitar o rótulo de celebridade.  Era isso o Ricardo que eu conhecia, e de quem já sinto uma imensa saudade.






quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

O Sucesso do Reveillon no Rio de Janeiro






Apesar de não ser nenhuma novidade, não deixa de surpreender o enorme sucesso alcançado pela hotelaria carioca por ocasião dos festejos de Reveillon 2018/2019.  O que mais me impressiona não é o fato que quase todos os hotéis registraram taxas de ocupação acima de 95% (com muitos hotéis alcançando 100% de ocupação), e sim, o valor alcançado pelas diárias médias.  Em Copacabana, que continua sendo o epicentro do evento, graças à queima de fogos no dia 31/12 , era comum ver hotéis na orla alcançando diárias médias cinco vezes maiores que os preços normalmente praticados.  E mesmo nos hotéis fora da orla de Copacabana, assim como nos demais bairros da zona sul, foram raros os hotéis que não conseguiram diárias médias três vezes acima do normal.  

Outro fato que chama atenção é o desempenho positivo dos hotéis localizados na Barra da Tijuca.  Ali também, quase todos os hotéis registraram taxas de ocupação próximas a 100%, e com diárias médias duas ou três vezes acima dos normais.  Vale a pena registrar o fato que os hotéis localizados na orla da Barra de Tijuca já vem há alguns meses registrando um aumento significativo de turistas de lazer, principalmente de brasileiros, e as perspectivas para o verão de 2019 são bastante positivas.  Se o crescimento observado na Barra continua nesse ritmo, já é possível prever o dia em que o desempenho dos hotéis da orla da Barra começarão a igualar, ou até superar, seus concorrente da zona sul!  Já para os hotéis  localizados fora da orla, principalmente nas proximidades da Avenida Abelardo Bueno, a dependência em grandes eventos, e o sucesso do RioCentro continua sendo a realidade.


Não obstante o sucesso de Reveillon, o ano de 2018 como um todo não deixará saudades para os hoteleiros cariocas.  Embora houve um modesto melhora em relação ao ano de 2017, o desempenho geral dos hotéis continua bem abaixo dos níveis alcançados cinco ou seis anos atrás.  Por outro lado, considerando todas as mazelas pelas quais a cidade passou nestes últimos tempos os hoteleiros podem até sentir aliviados pelo fato da situação não ser muito pior.  Agora, com um novo Governo tomando posse, as esperanças de dias melhores renascem.  Como este Reveillon acabou de demonstrar, a atração da cidade como destino turístico continua imbatível.  Imagine o que seria com uma cidade organizada e seguro, e bem promovida.  Será que isso é pedir demais?

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

LVMH e o grupo Belmond

A notícia mais interessante da semana na hotelaria mundial foi o anúncio da oferta de aquisição do grupo Belmond (ex- Orient Express), e dono do Copacabana Palace, pelo conglomerado francês LVMH, dono de mais de 50 marcas de luxo, entre os quais, Louis Vuitton, Fendi, Bvlgari, Givenchy, Christian Dior, Moët Chandon, Dom Pérignon, Tag Heuer, etc. etc.    O grupo LVMH tem mais de 120.000 funcionários e no ano passado registrou um lucro de mais de cinco bilhões de euros. A concretização da venda ainda depende da aprovação dos acionistas das duas empresas e das autoridades competentes, mas é esperado ser concluída no primeiro semestre de 2019.

A venda do grupo Belmond já era esperado, como eu mesmo havia mencionado num blog publicado algumas semanas atrás, após o grupo ter anunciado um "strategic review" que foi largamente interpretado como um sinal que o grupo estava à venda, o que despertou um processo de venda altamente competitivo. As ações do Belmond já haviam aumentado quase 50% quando foi anunciado o "strategic review", e agora aumentaram mais 40% com o anuncio do acordo de venda.

Que o grupo LVMH tenha ganho a disputa constitui uma grande surpresa, dado a sua pouca participação no mercado hoteleiro, e a especulação que grupos do Oriente Médio e da Ásia, além de grandes grupos hoteleiros, e fundos de private-equity dominava o processo de venda.  Para o Belmond, entretanto, não poderia ter havido melhor desfecho que a compra pela LVMH.  E por uma variedade de razões, a mais importante sendo a garantia da continuidade da marca Belmond, e a manutenção de sua estrutura operacional, incluindo de pessoal.  Uma segunda grande vantagem é o investimento que LVMH fará na divulgação da marca Belmond, que é uma marca relativamente recente e ainda pouca conhecida,  e ninguém entende mais de como divulgar uma marca de luxo do que LVMH.  Acrescenta-se a isso a sinergia evidente que a Belmond terá com várias marcas do conglomerado, e de possibilidades de crescimento da marca através de novos aquisições, não há dúvida que a venda para LVMH foi sensacional para Belmond, e que terá consequentemente desdobramentos positivos no Brasil, tanto para o Copacabana Palace como para o Hotel das Cataratas.

Para o grupo LVMH, a compra do Belmond é uma demonstração que o futuro do mercado de luxo não se limita ao consumo de bens de luxo, mas também a viver "experiencias" de luxo, caracterizados por visitas a lugares especiais e únicos, que é a marca registrada da marca Belmond.  Lembrando que a grande maioria dessa coleção icônica foi adquirida e desenvolvida por James Sherwood, na época em que ele foi o fundador e CEO do saudoso Orient-Express.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

As Onças Pintadas de Foz do Iguaçu


Hoje, vejo nos jornais que a onça pintada foi transformada oficialmente em símbolo da biodiversidade no Brasil e até ganhou um dia nacional, que é 29 de novembro.  O lançamento do dia nacional da onça ocorreu em Foz do Iguaçu, que é o principal centro de conservação da especie na Mata Atlântica, justamente dentro do Parque Nacional do Iguaçu.  Segundo as informações publicadas, a população dos felinos no Parque aumentou de 11 animais em 2009 para 22 em 2016.

Fico duplamente feliz com esta notícia, primeiro pelo amor que tenho pelos animais, e pela consciência ambiental que adquiri em boa parte ao conhecer o trabalho desenvolvido pelo ICMBio dentro do Parque Nacional, e segundo porque o projeto que deu início a esse trabalho de recuperação desses animais foi financiado pelo grupo Orient-Express através de um convenio firmado entre o grupo inglês e o ICMBio em 2007.  É que o convênio era uma das obrigações assumidas por Orient-Express ao vencer a licitação para administrar o Hotel das Cataratas durante 20 anos.

Falando do Hotel das Cataratas, é também motivo de muita satisfação verificar o sucesso que o hotel vem obtendo e a sua consolidada reputação como sendo um dos melhores hotéis do Brasil.  Quem acompanhou o demorado e complexo processo de licitação; o trabalho de transferir a administração do hotel do grupo Tropical para Orient-Express; e depois o trabalho de renovar completamente o hotel sabe das muitas dificuldades e desafios enfrentados.  E isso sem falar das dificuldades - ainda existentes - no que diz respeito à administração do contrato de concessão com a SPU - Secretaria de Patrimônio da União.

Há tempos atrás, escrevi em detalhes sobre como James Sherwood, Fundador do grupo Orient-Express, veio a se interessar pelo Hotel das Cataratas e como a sua característica determinação resultou na aquisição do contrato de arrendamento do hotel. Se alguém quiser saber mais sobre esse assunto basta procurar nos arquivos desse blog.  Vejo, também com satisfação, que o sucesso que o hotel alcançou não de limitou somente ao hotel.  Seu primeiro Diretor Geral na época do Orient-Express, Celso Valle, que lá permaneceu por 8 anos, hoje é o Diretor Geral do mais luxuoso e badalado hotel de São Paulo, o Palácio Tangará.