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quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019
Eu e o Maracanã
A primeira vez que fui no Maracanã foi em 1962, quando fui assistir a partida entre Santos e Benfica no primeiro jogo da Taça Intercontinental, como era conhecido naquela época, e que hoje corresponde ao Mundial de Clubes. Foi um jogaço. De um lado Santos de Pelé e Coutinho e Pepe e tantos outros craques, e do outro Benfica, do genial Eusébio. Santos venceu o jogo pelo placar de 3 x 2, mas no segundo jogo, 3 semanas depois em Lisboa, Santos venceu novamente, dessa vez pelo placar de 5 x 1, sagrando assim campeão mundial de clubes.
Logo depois, assisti meu primeiro jogo do Flamengo no Maracanã, uma vitória de 2x0 sobre Bangu, e pronto, como num passo de mágico, eu havia me tornado rubro-negro. Uma vez Flamengo, sempre Flamengo. Dali, até o final da década de '90, calculo ter ido ao Maracanã mais de mil vezes. Não perdia um jogo sequer do Mengão. Podia ser uma terça-feira a noite contra Olaria, ou um Domingo contra Vasco, não importava, eu estava lá, com camisa, bandeira, e a almofada (rubro-negra) que toda frequentador assídua da arquibancada levava ao estádio..
Fora os jogos do Flamengo, também comparecia ao Maracanã sempre que a seleção brasileira lá jogava, incluindo nisso a serie de 3 jogos em que a seleção jogava em casa, contra Colombia, Venezuela, e Paraguai, respectivamente, para a classificação para a Copa de 1970. O último desses jogos foi contra Paraguai, e a seleção necessitavam apenas empatar para garantir a vaga para a Copa.
O jogo estava marcada para começar as 16 horas. Saí de casa no Leblon, junto com quatro amigos, às 9.30 da manhã e chegamos no Maracanã por volta das 10 horas e conseguimos entrar no estacionamento que naquele tempo ainda existia dentro do complexo do Maracanã, e ficamos esperando as roletas abrirem as 11 horas para dar acesso à arquibancada, conforme a previsão. Por sorte nossa, a nossa roleta, vindo do estacionamento, abriu alguns instantes antes das roletas principais. Nesse dia, o acesso à arquibancada era somente pelo anel superior e subi as duas rampas num pique impressionante, e fui a primeira pessoa a acessar a arquibancada. Escolhi uma posição exatamente na linha intermediária do campo e sentei. Eram 11 horas e cinco minutos. Ao meio-dia, se levantasse, não sentaria mais, pôs nessa altura, além de estamos apertadas feitos sardinhas na lata, tinha pessoas nos meus pés e outras nas minhas costas. Como não tinha nada a fazer, nem nada para assistir, pois não houve jogo preliminar, a diversão da torcida era de dar empurrões nos retardatários que tentavam se equilibrar entre os degraus enquanto buscavam um local para sentar, e vê-los rolar por cima das cabeças de quem já estava sentado. Considero um pequeno milagre que não morreu ninguém. Oficialmente, teve 195.000 pessoas presentes (183.000 pagantes, um recorde de pagantes), e Brasil ganhou o jogo por 1x0, gol de Pelé.
Apesar da confusão daquele dia, não foi essa o maior sufoco que passei no Maracanã. A pior situação que enfrentei foi na tentativa de comprar ingressos pra um Flamengo x Vasco, no dia 1º de maio de 1968. Como se sabe, o ano de 1968 foi um ano tumultuado em vários países do mundo, como os protestos dos estudantes em Paris e o movimento contra a guerra do Vietnam nos Estados Unidos, para citar os mais conhecidos. No Brasil, o governo militar também estava pressionado por um crescente movimento de protesto estudantil contra a ditadura, e estava sendo organizado uma grande manifestação no feriado de 1º de maio - o Dia do Trabalhador. Supostamente para esvaziar a manifestação, foi programado um Flamengo x Vasco, para o mesmo dia. Entre ir para a manifestação ou ir para o Maracanã, eu escolhi o Maracanã, Chegando lá, como de hábito, duas horas antes da partida começar, encontrei um enorme fila nas bilheterias para comprar ingressos para a arquibancada. Mesmo assim, entrei na fila, que quase não andava. Enquanto isso, não parava de chegar gente, com todo mundo empurrando quem estava na frente. Após um tempo, correu a notícia que as bilheterias havia fechadas pois os ingressos haviam esgotados. Só que ninguém conseguia mexer, pois cada vez chegava mais gente e as pessoas mais a frente estavam sendo esmagados contra as grades da bilheteria. Várias pessoas começaram a ficar desesperadas e passar mal, mas ninguém conseguia se mexer, com a multidão atrás empurrando para frente e as pessoas mais a frente ficando cada vez mais difícil respirar. Comecei a achar que eu iria morrer asfixiado mas quando a situação estava ficando muito feia, apareceu dois PM's da cavalaria que meterem os cavalos por cima da multidão, que logo se dispersou, evitando assim o esmagamento. Saí de lá com as pernas bambas mas ainda fui procurar ingressos para o Geral, mas esses também estavam esgotados. Foi a única vez que fui ao Maracanã e não consegui entrar no estádio.
Em 1971 assisti dois eventos notáveis, a despedida do Pelé da seleção brasileira num jogo amistoso contra Yugoslavia (o jogo terminou 2x2), e a estreia do Zico no time principal do Flamengo. Ainda levou alguns anos para o garoto franzino se firmar como titular do Flamengo mas a torcida toda sabia que tínhamos uma joia rara. De fato, quem teve, como eu, o privilegio de acompanhar a carreira do Zico no Flamengo ao longo das décadas de '70 e '80 sabe que desfrutou de tudo que uma torcida pode almejar na vida. Foi uma época gloriosa, com grandes craques, grandes jogos, e grandes conquistas. Quem viu, viu, quem não viu, não verá nunca mais, isso que é a realidade.
Nos anos '90, continuei frequentando o Maracanã, mas nesta altura eu já havia migrado para as cadeiras especiais, e até a tribuna honra, pois de vez em quando acompanhava visitantes VIP's ao estádio. Eu estava lá em 1992 quando Flamengo conquistou mais um campeonato nacional, e assisti, horrorizado, quando rompeu uma parte da grade da arquibancada onde ficava a torcida do Flamengo e dezenas de rubro-negros caírem nas cadeiras embaixo. A culpa do acidente foi das autoridades responsáveis pelo estádio pois haviam divididos o espaço da arquibancada meio a meio entre as torcidas do Flamengo e Botafogo, quando a torcida do Flamengo é no mínimo três vezes maior que a do Botafogo. Resultado, os flamenguistas estavam todos espremidos enquanto o lado do Botafogo sobrava espaços vazios.
Já no final da década de '90 o Maracanã começou a passar por uma serie de reformas de modernização, e que consumiu mais de R$2 bilhões de dinheiro público, que resultou no estádio que temos hoje, que na minha opinião, não chega aos pés do original. A retirada do Geral tirou um espaço popular que contribuía muito para a alma do estádio, além de proporcionar a oportunidade de pessoas de baixa renda ter acesso aos jogos por preços razoáveis. Depois a colocação de cadeiras na arquibancada reduziu muito a capacidade do estádio. Outro fator negativo, ao meu ver, foi o crescimento do espaço das cadeiras especiais, "invadindo" o espaço que antes pertencia às arquibancadas. O resultado dessa modernização é que o estádio hoje tem capacidade para apenas 78.000 espectadores, os ingressos são muitíssimo mais caros, e o ambiente eletrizante que existia sempre que havia um jogo 'clássico" não existe mais.
O que me motivou a fazer estas recordações foi a confusão extrema que testemunhamos neste último Domingo, por ocasião do final da Taça Guanabara entre Fluminense e Vasco da Gama, e tudo provocado por uma discussão idiota sobre qual torcida deverá ficar posicionada à direita dos cabines de rádio. Ora, até o Sobrenatural de Almeida sabe que o lugar à direita dos cabines de rádio pertence ao Vasco, assim como o espaço à esquerda pertence ao Flamengo. É assim desde sempre, desde que o mundo é mundo, ou melhor, desde que o Maracanã é Maracanã. Fluminense, por sua vez, fica à esquerda, mas saí para a direita quando enfrenta Flamengo, e Botafogo fica à direita, mas sai para a esquerda quando enfrenta Vasco. Tudo muito fácil, sem problemas. Não me venham dizer que o Fluminense tem contrato desde 2013 com os concessionários do estádio para ficar à direita dos cabines do rádio quando tem mando de campo, e outros blá blá blá. Isso é um desrespeito às tradições do Estádio, uma burrice sem tamanho, e um convite ao caos que acabamos de testemunhar domingo passado. Não gosto do Vasco, como também não gosto do Fluminense (apesar de ter netos de ambos esses times), mas fiquei feliz que Vasco venceu o jogo para Fluminense deixar de ser besta, e voltar para seu devido lugar. E para finalizar, estou inteiramente a favor do projeto de transformar o espaço atrás dos gols em áreas que podem ficar de pé, desde que pratica preços populares. Vamos trazer o povo de volta ao Maracanã e, quem sabe, reviver a alegria de antigamente!
!
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019
Ricardo Boechat e o Livro do Copa
Lamentavelmente, o Brasil acaba de perder um dos seus grandes jornalistas e apresentadores na pessoa do Ricardo Boechat, vitima do trágico acidente de helicóptero ante-ontem em São Paulo. O trajetória de sucesso do Boechat como jornalista e apresentador de rádio e televisão é amplamente conhecido e o impacto de sua morte trágica e prematura é lamentada por milhões de pessoas no Brasil inteiro. Sem dúvida fará muita falta para muita gente, sem falar de sua própria família, que é onde certamente sua ausência será ainda mais sentida.
Como milhões de outras pessoas, eu também vou sentir muito a sua falta. Conheço Ricardo há mais de 30 anos, desde que ele era responsável pela coluna do Swann no Jornal Globo, e acompanho seu trajetória de sucesso desde este tempo. O estilo combativo e questionador do Ricardo, e até sua rebeldia, eram marcas características de sua personalidade, como eram também sua simplicidade, generosidade, e grande humanidade. Tinha uma grande sensibilidade para as injustiças sociais existentes no Brasil e lutava todos os dias para tornar Brasil um país melhor. É por isso que ele fará tanta falta, para tantas pessoas.
De uma certa forma, é até irônico que Ricardo começou sua carreira vitoriosa de jornalista no colunismo social, pois o mundo da elite carioca frequentadora das colunas sociais no início da década de '70 era um mundo totalmente antagônica ao mundo vivido por Ricardo, naquela época um membro de carteirinha e tudo do PCdoB. Talvez por isso, que Ricardo é creditado como sendo um dos responsáveis pela transformação das colunas sociais em espaços que apenas tratavam de relatar as historias da elite carioca para um espaço para publicar assuntos de interesse geral da cidade.
De qualquer forma, foi no Copacabana Palace, no início da década de '70, que Ricardo deu seus primeiros passos no jornalismo. Contratado pelo hotel como Assessor de Imprensa, após recomendação do então ícone do colunismo, Ibrahim Sued, que fazia da piscina do Copacabana Palace seu quartel-general, o trabalho de Ricardo era de garimpar notícias sobre as celebridades que se hospedavam no hotel para passar para a coluna social. Não demorou muito para que Ricardo passasse a assessorar diretamente Ibrahim, e com quem colaborou por 13 anos, ..."and the rest is history," como se diz. O certo é, por causa desse início de carreira, o Ricardo conhecia muito bem os bastidores do Copacabana Palace e sempre demonstrou um carinho muito especial, tanto para o hotel, como para seus colaboradores.
Anos mais tarde, já na década de '90, estávamos às voltas com a idéia de produzir um livro relatando a história única do Copacabana Palace. Para dar o início ao livro, o Gerente de Comunicações do hotel na época, o jornalista Eugênio Lyra Filho, e a RP do Hotel, Claudia Fialho, auxiliados por uma equipe de pesquisadores, haviam reunida uma extensa documentação com as histórias do passado. A ideia inicial foi que o texto do livro seria escrito por Eugênio Lyra, mas infelizmente Eugênio veio a falecer após uma cirugia cardíaca, e o projeto de escrever o livro ficou paralisado por algum tempo.
Foi por ocasião da celebração do aniversário de 75 anos do hotel, em 1998, que o projeto de publicar o livro foi retomado. Não me lembro exatamente como, mas provavelmente por sugestão de Claudia Fialho, autora de muitas boas idéias, surgiu a idéia de convidar Ricardo Boechat para escrever o livro. Nesta altura, Ricardo já era um jornalista consagrado, e super ocupado, mas mesmo assim, após muito trabalho de convencimento, concordou em escrever o livro.
Foi a partir desse momento que passei a ter um contato quase diário com Ricardo, ao longo de vários meses, na medida que o texto do livro ia tomando forma, e a minha profunda admiração pela pessoa do Ricardo vem desse tempo. O trabalho de desenvolver o texto foi exaustivo, pois reunir milhares de pequenas histórias num texto coerente e de agradável leitura só seria possível para um grande jornalista. O resultado do livro, que é um relato não apenas das histórias do hotel, mas também do próprio bairro de Copacabana, assim como da cidade do Rio de Janeiro na sua época mais gloriosa é um testemunho da grande competência do Ricardo, e que ficará conosco para sempre.
Depois do sucesso da primeira edição do livro, foram feitas mais duas edições para comemorar respectivamente os aniversários de 80 e 85 anos do hotel. Em ambas essas edições o texto que atualizava a história do hotel foi desenvolvido com maestria por Ricardo, na última relatando com detalhes aspectos relacionados à hospedagem dos Rolling Stones por ocasião do épico show na praia de Copacabana em 2006.
Agora, leio nos jornais que a direção do Copacabana Palace pretende homenagear Ricardo inaugurando uma fotografia sua na galeria de fotos de celebridades que já se hospedarem no hotel. É uma homenagem justa, e mais que merecida, embora Ricardo seria a primeira pessoa a rejeitar o rótulo de celebridade. Era isso o Ricardo que eu conhecia, e de quem já sinto uma imensa saudade.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2019
O Sucesso do Reveillon no Rio de Janeiro
Apesar de não ser nenhuma novidade, não deixa de surpreender o enorme sucesso alcançado pela hotelaria carioca por ocasião dos festejos de Reveillon 2018/2019. O que mais me impressiona não é o fato que quase todos os hotéis registraram taxas de ocupação acima de 95% (com muitos hotéis alcançando 100% de ocupação), e sim, o valor alcançado pelas diárias médias. Em Copacabana, que continua sendo o epicentro do evento, graças à queima de fogos no dia 31/12 , era comum ver hotéis na orla alcançando diárias médias cinco vezes maiores que os preços normalmente praticados. E mesmo nos hotéis fora da orla de Copacabana, assim como nos demais bairros da zona sul, foram raros os hotéis que não conseguiram diárias médias três vezes acima do normal.
Outro fato que chama atenção é o desempenho positivo dos hotéis localizados na Barra da Tijuca. Ali também, quase todos os hotéis registraram taxas de ocupação próximas a 100%, e com diárias médias duas ou três vezes acima dos normais. Vale a pena registrar o fato que os hotéis localizados na orla da Barra de Tijuca já vem há alguns meses registrando um aumento significativo de turistas de lazer, principalmente de brasileiros, e as perspectivas para o verão de 2019 são bastante positivas. Se o crescimento observado na Barra continua nesse ritmo, já é possível prever o dia em que o desempenho dos hotéis da orla da Barra começarão a igualar, ou até superar, seus concorrente da zona sul! Já para os hotéis localizados fora da orla, principalmente nas proximidades da Avenida Abelardo Bueno, a dependência em grandes eventos, e o sucesso do RioCentro continua sendo a realidade.
Não obstante o sucesso de Reveillon, o ano de 2018 como um todo não deixará saudades para os hoteleiros cariocas. Embora houve um modesto melhora em relação ao ano de 2017, o desempenho geral dos hotéis continua bem abaixo dos níveis alcançados cinco ou seis anos atrás. Por outro lado, considerando todas as mazelas pelas quais a cidade passou nestes últimos tempos os hoteleiros podem até sentir aliviados pelo fato da situação não ser muito pior. Agora, com um novo Governo tomando posse, as esperanças de dias melhores renascem. Como este Reveillon acabou de demonstrar, a atração da cidade como destino turístico continua imbatível. Imagine o que seria com uma cidade organizada e seguro, e bem promovida. Será que isso é pedir demais?
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
LVMH e o grupo Belmond
A notícia mais interessante da semana na hotelaria mundial foi o anúncio da oferta de aquisição do grupo Belmond (ex- Orient Express), e dono do Copacabana Palace, pelo conglomerado francês LVMH, dono de mais de 50 marcas de luxo, entre os quais, Louis Vuitton, Fendi, Bvlgari, Givenchy, Christian Dior, Moët Chandon, Dom Pérignon, Tag Heuer, etc. etc. O grupo LVMH tem mais de 120.000 funcionários e no ano passado registrou um lucro de mais de cinco bilhões de euros. A concretização da venda ainda depende da aprovação dos acionistas das duas empresas e das autoridades competentes, mas é esperado ser concluída no primeiro semestre de 2019.
A venda do grupo Belmond já era esperado, como eu mesmo havia mencionado num blog publicado algumas semanas atrás, após o grupo ter anunciado um "strategic review" que foi largamente interpretado como um sinal que o grupo estava à venda, o que despertou um processo de venda altamente competitivo. As ações do Belmond já haviam aumentado quase 50% quando foi anunciado o "strategic review", e agora aumentaram mais 40% com o anuncio do acordo de venda.
Que o grupo LVMH tenha ganho a disputa constitui uma grande surpresa, dado a sua pouca participação no mercado hoteleiro, e a especulação que grupos do Oriente Médio e da Ásia, além de grandes grupos hoteleiros, e fundos de private-equity dominava o processo de venda. Para o Belmond, entretanto, não poderia ter havido melhor desfecho que a compra pela LVMH. E por uma variedade de razões, a mais importante sendo a garantia da continuidade da marca Belmond, e a manutenção de sua estrutura operacional, incluindo de pessoal. Uma segunda grande vantagem é o investimento que LVMH fará na divulgação da marca Belmond, que é uma marca relativamente recente e ainda pouca conhecida, e ninguém entende mais de como divulgar uma marca de luxo do que LVMH. Acrescenta-se a isso a sinergia evidente que a Belmond terá com várias marcas do conglomerado, e de possibilidades de crescimento da marca através de novos aquisições, não há dúvida que a venda para LVMH foi sensacional para Belmond, e que terá consequentemente desdobramentos positivos no Brasil, tanto para o Copacabana Palace como para o Hotel das Cataratas.
Para o grupo LVMH, a compra do Belmond é uma demonstração que o futuro do mercado de luxo não se limita ao consumo de bens de luxo, mas também a viver "experiencias" de luxo, caracterizados por visitas a lugares especiais e únicos, que é a marca registrada da marca Belmond. Lembrando que a grande maioria dessa coleção icônica foi adquirida e desenvolvida por James Sherwood, na época em que ele foi o fundador e CEO do saudoso Orient-Express.
A venda do grupo Belmond já era esperado, como eu mesmo havia mencionado num blog publicado algumas semanas atrás, após o grupo ter anunciado um "strategic review" que foi largamente interpretado como um sinal que o grupo estava à venda, o que despertou um processo de venda altamente competitivo. As ações do Belmond já haviam aumentado quase 50% quando foi anunciado o "strategic review", e agora aumentaram mais 40% com o anuncio do acordo de venda.
Que o grupo LVMH tenha ganho a disputa constitui uma grande surpresa, dado a sua pouca participação no mercado hoteleiro, e a especulação que grupos do Oriente Médio e da Ásia, além de grandes grupos hoteleiros, e fundos de private-equity dominava o processo de venda. Para o Belmond, entretanto, não poderia ter havido melhor desfecho que a compra pela LVMH. E por uma variedade de razões, a mais importante sendo a garantia da continuidade da marca Belmond, e a manutenção de sua estrutura operacional, incluindo de pessoal. Uma segunda grande vantagem é o investimento que LVMH fará na divulgação da marca Belmond, que é uma marca relativamente recente e ainda pouca conhecida, e ninguém entende mais de como divulgar uma marca de luxo do que LVMH. Acrescenta-se a isso a sinergia evidente que a Belmond terá com várias marcas do conglomerado, e de possibilidades de crescimento da marca através de novos aquisições, não há dúvida que a venda para LVMH foi sensacional para Belmond, e que terá consequentemente desdobramentos positivos no Brasil, tanto para o Copacabana Palace como para o Hotel das Cataratas.
Para o grupo LVMH, a compra do Belmond é uma demonstração que o futuro do mercado de luxo não se limita ao consumo de bens de luxo, mas também a viver "experiencias" de luxo, caracterizados por visitas a lugares especiais e únicos, que é a marca registrada da marca Belmond. Lembrando que a grande maioria dessa coleção icônica foi adquirida e desenvolvida por James Sherwood, na época em que ele foi o fundador e CEO do saudoso Orient-Express.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
As Onças Pintadas de Foz do Iguaçu
Hoje, vejo nos jornais que a onça pintada foi transformada oficialmente em símbolo da biodiversidade no Brasil e até ganhou um dia nacional, que é 29 de novembro. O lançamento do dia nacional da onça ocorreu em Foz do Iguaçu, que é o principal centro de conservação da especie na Mata Atlântica, justamente dentro do Parque Nacional do Iguaçu. Segundo as informações publicadas, a população dos felinos no Parque aumentou de 11 animais em 2009 para 22 em 2016.
Fico duplamente feliz com esta notícia, primeiro pelo amor que tenho pelos animais, e pela consciência ambiental que adquiri em boa parte ao conhecer o trabalho desenvolvido pelo ICMBio dentro do Parque Nacional, e segundo porque o projeto que deu início a esse trabalho de recuperação desses animais foi financiado pelo grupo Orient-Express através de um convenio firmado entre o grupo inglês e o ICMBio em 2007. É que o convênio era uma das obrigações assumidas por Orient-Express ao vencer a licitação para administrar o Hotel das Cataratas durante 20 anos.
Falando do Hotel das Cataratas, é também motivo de muita satisfação verificar o sucesso que o hotel vem obtendo e a sua consolidada reputação como sendo um dos melhores hotéis do Brasil. Quem acompanhou o demorado e complexo processo de licitação; o trabalho de transferir a administração do hotel do grupo Tropical para Orient-Express; e depois o trabalho de renovar completamente o hotel sabe das muitas dificuldades e desafios enfrentados. E isso sem falar das dificuldades - ainda existentes - no que diz respeito à administração do contrato de concessão com a SPU - Secretaria de Patrimônio da União.
Há tempos atrás, escrevi em detalhes sobre como James Sherwood, Fundador do grupo Orient-Express, veio a se interessar pelo Hotel das Cataratas e como a sua característica determinação resultou na aquisição do contrato de arrendamento do hotel. Se alguém quiser saber mais sobre esse assunto basta procurar nos arquivos desse blog. Vejo, também com satisfação, que o sucesso que o hotel alcançou não de limitou somente ao hotel. Seu primeiro Diretor Geral na época do Orient-Express, Celso Valle, que lá permaneceu por 8 anos, hoje é o Diretor Geral do mais luxuoso e badalado hotel de São Paulo, o Palácio Tangará.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Novidades
Já que se passaram mais de 4 anos desde a minha última postagem neste blog, resolvi fazer um pequeno "update", até para manter o blog ativo. Nesses últimos anos o blog teve mais de 13.000 acessos, curiosamente, a maioria sendo dos Estados Unidos, mas seguido de perto por Brasil. Na totalidade teve acessos de quase 100 países diferentes.
Nesses últimos anos tenho me mantido razoavelmente ocupado através da minha empresa de consultoria, Carruthers Consulting, que tem realizado diversos trabalhos relacionados a hotelaria. Consequentemente tenho me mantido a par do andamento do mercado hoteleiro carioca, e, principalmente, das dificuldades enfrentadas pela hotelaria nestes dois últimos anos.
Quando me lembro da nossa euforia e alegre no momento que a cidade do Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos Jogos Olímpicos em outubro de 2009, e quando vejo os resultados dos últimos dois anos, é impossível sentir uma decepção maior. Em 2009, estávamos convencidos que a oportunidade de sediar os Jogos Olímpicos de 2016, apenas dois anos após a realização da Copa do Mundo em 2014 seria a consolidação definitiva da imagem da cidade do Rio de Janeiro como um destino turístico de classe mundial, e uma garantia de sucesso continuo por mais 20 anos.
Em vez disso, vejo a hotelaria carioca atravessando uma das piores e mais prolongadas crises de sua história, com vários hotéis fechados e outros a beira da falência. Me entristece, particularmente, saber da recuperação judicial de Hotéis Othon, a casa que, em boa parte, me formou para a hotelaria, e permitiu que eu tivesse a carreira que tive. O fechamento de dois dos seus hotéis mais icônicos, o Bahia Othon Palace e o Belo Horizonte Othon Palace - ambos eu tive o privilegio de gerenciar na década de '70 quando eles estavam no auge do seu sucesso - também entristece.
Quanto ao Copacabana Palace, não obstante ao fato que continuo mantendo um excelente e carinhoso relacionamento com a diretora, Andrea Natal, além de outros executivos, não posso deixar de perceber que eu tive a sorte de ter estado lá no melhor período possível, quanto pertencia ao grupo Orient-Express que tinha um dono carismático e poderoso na pessoa de James Sherwood no comando. Sherwood não era perfeito, mas, na minha opinião, era muito melhor trabalhar para ele do que para a fria estrutura corporativa que o sucedeu. Hoje eu vejo uma companhia muito diferente de Orient-Express, chamado Belmond, que é uma empresa publica, sem um único dono, cheio de normas e controles centrais, usando sempre os mesmos "buzz- words" da moda para descrever sua evolução, e que agora mesmo está conduzindo um "strategic review" nos destinos da companhia, o que significa que está considerando a venda da companhia como um todo, ou até alguns hotéis separadamente.
Enfim, a vida passa e as coisas mudam. Apesar de tudo, não sou tão pessimista quanto ao futuro. Vejo, por exemplo, um início de uma recuperação no movimento nos hotéis cariocas. É uma recuperação ainda tímida, mas já é alguma coisa positiva. O novo governo tem citado o turismo como uma atividade importante para a retomada da economia e o crescimento da oferta de empregos, assim como o novo governador. Para que o turismo dê certo é imprescindível, como certamente todos já estão cansados de saber, que a primeira coisa que tem que acontecer é uma melhora sensível na segurança pública. Não haverá futuro para o turismo na cidade sem resolver a questão de segurança pública, isso é muito óbvio!
Daqui para frente pretendo dar continuidade a esse blog, emitindo opiniões sobre hotelaria e turismo em geral sempre que considero oportuno. Agradeço o apoio recebido dos meus leitores assíduos, e fico grato em receber quaisquer críticas e/ou comentários sobre o conteúdo das postagens.
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
A Ultima Etapa
Em meados de 2009 conseguimos a luz verde da diretoria e de alguns
membros do Board da Orient-Express para prosseguir nos estudos de viabilidade para
o que seria a ultima etapa das reformas do Copacabana Palace. Estas obras eram
essenciais para preparar o hotel para a concorrência que viria, e se tornaram
mais importantes ainda em outubro de 2009 quando a cidade recebeu a indicação
para sediar os jogos olímpicos de 2016.
Finalmente, as obras representariam uma marca importante por finalmente
cumprir o objetivo determinado por James Sherwood em 1989, de reformar completamente
o hotel e de torna-lo o melhor hotel da América do Sul. Embora tínhamos um sinal verde, sabíamos que
ainda teríamos muito trabalho pela
frente antes que as obras pudessem começar.
Primeiro tínhamos que desenvolver o projeto arquitetônico e conseguir as
aprovações para as obras na Prefeitura e junto aos órgãos de Patrimônio
Histórico. E não se tratava de uma obra
de reforma qualquer, pois o projeto previa a virtual reconstrução de dois
andares, totalizando 55 apartamentos , por um custo por apartamento estimado em
US$150 mil. Além disso, o projeto previa
intervenções de menor porte em mais 60 apartamentos, e a completa reforma de
cada uma dos sete famosas suítes de cobertura.
No caso do Patrimônio Histórico, o processo de aprovação foi complexo
pois nosso projeto previa a ampliação do espaço do Lobby do hotel em 60%,
principalmente em função da nossa vontade, e da necessidade legal, de cumprimos
com as leis de acessibilidade para pessoas portadores de deficiências
existentes no âmbito federal, estadual, e municipal. Em se tratando de um prédio construído em
1923, muito antes de existir qualquer preocupação neste sentido, e considerando
que o prédio está tombado pelo patrimônio histórico, o desafio foi grande. Felizmente, contamos com a boa vontade e com
a orientação dos técnicos do patrimônio histórico, e após alguns ajustes ao
projeto foi possível encontrar soluções que atendiam a todos. Paralelo a este trabalho tivemos que elaborar
um detalhado “business plan” que permitiria a aprovação formal do projeto por
parte do Board, pois afinal de contas tratava-se de um investimento de mais de
US$20 milhões. Antigamente, bastava que
o James Sherwood estivesse de acordo com as obras e ele tratava de obter a
aprovação formal junto ao Board, mas sem Sherwood, o processo de aprovação foi
bem mais complexo, e demorado. Inicialmente havíamos planejado realizar as
obras durante a baixa estação de 2011, mas, em meados de 2010, o Board decidiu
adiar as obras por mais um ano. Esta
decisão foi facilitada pelo atraso já constatado na reforma do Hotel Glória e o Board
preferiu aguardar mais um ano de bons resultados do Copa enquanto os
demais hotéis do grupo ainda se recuperava da crise financeira mundial de
2008. De fato, tanto o ano de 2010 como de
2011 foram excelentes para o Copa, com o hotel estabelecendo novos recordes de
lucratividade a cada ano que passava, além de consolidar a sua posição como
sendo o hotel mais lucrativo da companhia.
Quando tudo parecia andar bem para que as obras acontecessem em 2012,
fomos surpreendidos, em julho de 2011, pela súbita renuncia, por motivos
pessoais, do CEO do Orient-Express, Paul White, justamente a pessoa que mais
havia apoiada nosso projeto, desde o início.
Esta mudança inesperada trouxe novos desafios, entre os quais a
necessidade de defendermos mais uma vez a realização dos investimentos
pretendidos. O problema era dificultado porque com as constantes mudanças na
composição do Board do Orient-Express, poucos membros tinham um conhecimento
profundo da realidade do Copacabana Palace, nem do mercado hoteleiro do Rio de
Janeiro, e nem do Brasil. Sabiam,
entretanto, que o Copacabana Palace era o hotel mais lucrativo da companhia, e
sabiam do potencial futuro do hotel com o crescimento de demanda esperada
antes, durante, e após os grandes eventos esportivos programados para
acontecer. E sabiam também que o
Copacabana Palace tinha um “track record” invejável no cumprimento do retorno
nos investimentos realizados ao longo dos anos. Para a execução dessa fase das
reformas, seria necessário fechar o prédio principal do hotel por um período de
quatro meses, e foi um grande desafio demonstrar para o Board, e seu comitê de
investimentos, que o fechamento do prédio principal do hotel durante quatro
meses (que corresponderiam a baixa estação entre maio e setembro) não teria um
efeito catastrófico nos resultados financeiros do ano de 2012 como um todo. Outra dificuldade era demonstrar para os
membros do Board, muitos dos quais nem conheciam o Brasil, que os preços cotados
para a reforma eram compatíveis com a realidade brasileira, já que,
principalmente para os americanos, os preços pareciam ser astronômicos, como
eram mesmo, e ainda mais com o dólar cotado a R$1,60. Felizmente,
todos os obstáculos foram superados, e as obras foram confirmadas para
acontecer em 2012. Havíamos programado
para iniciar as obras no início de maio, assim que terminasse a realização da
Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida
como o Rio+20. Infelizmente, este evento
foi adiada por duas vezes, sendo finalmente realizado entre 13 e 22 de junho de
2012. Como não dava para fechar o hotel
na véspera da realização de um evento que contava com a presença de chefes de
estados de 190 países, mais de vinte dos quais hospedados no Copa, tivemos que
adiar o início das obras para o final de junho.
Mesmo assim, as obras foram todas terminadas até o final de novembro e
no 12 de dezembro de 2012 o prédio principal foi oficialmente reaberta com uma
grande festa para mais de 1500 convidados, entre os quais, eu e minha esposa,
Nara. É que em março de 2012, eu havia
comunicado ao cúpula da Orient-Express da minha decisão de deixar a empresa
para desfrutar da minha aposentadoria.
Para mim, a conclusão das obras de reforma representava o fim de um
ciclo, e a conclusão de um desafio que havia levado 23 anos para realizar. Dali em diante, caberia a outros responder
pelos destinos do Copacabana Palace.
Felizmente, eu havia preparado a minha sucessão cuidadosamente, como
contarei num futuro capítulo.
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