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quarta-feira, 1 de junho de 2011

Chegando em Sao Paulo

        Chegando em São Paulo, era como eu estivesse entrando num outro mundo.  As diferenças entre o Castro Alves e o Othon Palace eram enormes.  Enquanto o  Castro Alves era um modesto hotel de três estrelas, e cuja clientela era predominantemente composta de turistas brasileiras e sul-americanas, o Othon Palace era um imponente cinco estrelas  e, em 1972,  ainda era indiscutivelmente um dos melhores hotéis de São Paulo.  A localização no centro de São Paulo, na Praça Patriarca, era considerada  boa, pois o centro financeiro da cidade ainda ficavam nas proximidades.  A clientela era formada por executivos e homens de negócios, e o hotel ficava quase sempre lotado nos  dias de semana, mas a taxa de ocupação caia para 40-50% nos finais de semana.   Fora isso, haviam dois restaurantes movimentados, e um Bar que faturava mais por dia do que o Bar do Castro Alves em três meses. Alem disso, o hotel tinha mais que 300 funcionários, todos organizados por departamento, e uma estrutura organizacional completamente diferente do que existia no Rio, mesmo quando comparado ao do Leme Palace.    A minha função, de sub-gerente executivo, era similar  hoje  a função de Gerente Residente.   Basicamente, eu era responsável pela coordenação das áreas operacionais do hotel, principalmente das áreas de recepção, governanca, e manutenção.  O gerente de alimentos e bebidas, embora subordinado ao sub-gerente executivos no organograma, reportava-se diretamente ao gerente geral.   Tinha um bonito e amplo escritório,  que comportava uma mesa de reuniões para oito pessoas, e  uma janela que dava  vista para o Viaduto do Chá, e, pela primeira vez na vida, uma secretaria particular.  Aos poucos fui me adaptando a este novo mundo, e não demorou muito para eu perceber que eu tinha algumas vantagens.  Para começar, ninguém no hotel  conhecia mais  todos os processos e rotinas internas de Hotéis Othon do que eu.  Como eu havia estagiado no Leme Palace, e no Escritório Central, a ainda passado quase três anos no Hotel Castro Alves, onde todos as rotinas burocráticas era de responsabilidade do gerente, eu não sabia apenas interpretar os diversos relatórios gerenciais, mas sabia confecionar-los também.  Eu também entendia muito da CLT, e toda a burocracia trabalhista ligada a movimentação de pessoal e a confecção da folha de pagamento.   Como o Othon Palace era um hotel grande, muito departamentalizado, as pessoas só conheciam as rotinas do seu próprio departamento, enquanto eu, que vinha de um hotel pequeno, conhecia todas. Uma outra vantagem que eu tinha e que enquanto o pessoal de São Paulo não tinha muita intimidade com os temidos burocratas do Escritório Central no Rio, eu não apenas conhecia as pessoas,  mas  me dava bem com todos, e isto facilitavam muitos os entendimentos quando havia algum questionamento.  Com estas vantagens, fui logo conquistando a confiança dos demais gerentes e chefes de departamentos, e não  tive dificuldade de ser aceito como chefe, mesmo tendo apenas 26 anos de idade e tendo que lidar com profissionais muito mais experientes que eu.    Outro fato que me ajudou muito foi a capacidade de me comunicar bem na língua inglesa com o gerente geral, um suico recem chegado ao Brasil, que falava espanhol razoavelmente bem, mas não português.  Ele tinha trabalhado anteriormente na cadeia Intercontinental, na África, e no Oriente Médio, e o idioma inglês era sua língua preferida.  Eu tinha uma reunião formal com ele de uma hora, todas as manhas, junto com o gerente de alimentos e bebidas, quando ele fazia suas observacoes sobre a qualidade dos serviços e o movimento do hotel em geral.  O gerente de alimentos e bebidas era um jovem alemão, apenas três ou quatro anos mais velho que eu, mas com pouco tempo de Brasil, e  o gerente geral infernizava a vida dele.  Em parte, porque o gerente geral era também um “expert” na área de alimentos e bebidas, tendo já exercido a função de gerente de alimentos e bebidas em outros hotéis no exterior, e também, em parte, eu desconfio, porque o suico também não simpatizava muito com os alemães.  Também contribuía para o desgaste o fato que a esposa do gerente geral era uma senhora argentina, de temperamento difícil, que diariamente tinha queixas  sobre o Room Service, de qual era a cliente principal, já que morava no hotel.  As nossas reuniões então invariavelmente começavam com um serie de criticas dirigidas ao gerente de alimentos e bebidas em função da falta de qualidade dos alimentos servidos, ou da morosidade no atendimento do pessoal de Room Service.  Por mais que o gerente de alimentos e bebidas se esforçasse para contornar os problemas, nada satisfazia a exigente argentina, nem o irado suico.  Eu tentava amenizar um pouco a situação, pois sabia que as reclamacoes eram muitas vezes injustas, mas não havia muito que eu pudesse fazer.

         Fora estas reuniões diários, havia também toda semana a reunião dos Chefes de Departamento, reunindo em torno de vinte pessoas, sempre conduzido pelo gerente geral.  Eram reuniões formais, e da maior importância, onde se discutia todos os assuntos importantes e decidia providências a serem tomadas.  O follow-up e cobrança implacável aos gerentes dos assuntos pendentes de reuniões anteriores eram a marca registrada dessas reuniões.  De qualquer forma, para mim, ter a oportunidade de  observar de perto a atuacao de um gerente geral com experiência internacional numa cadeia de grande prestigio foi de um valor inestimável.  Era impressionante como ele analisava os resultados do hotel, e como ele cobrava resultados dos demais gerentes.  Ele se preocupava muito com a qualidade dos serviços prestados e passava sempre um bom tempo analisando os questionarios preenchidos pelos hospedes, e procurando sempre formas de aprimorar os serviços.  Mesmo assim, ficou logo evidente, que o poder real dentro do hotel ainda era exercido por Cortez. O fato que o Cortez havia passado quase dois anos no hotel como gerente geral, e feito tanto a reforma administrativa como a reforma fisica das instalacoes, fazia que ele, mesmo exercendo o cargo de Superintendente de Operacoes no Rio de Janeiro, nao se desligava da rotina diaria do hotel.   Diariamente, o gerente geral tinha que telefonar para Cortez no Rio para comentar as coisas mais importantes que havia ocorrido, como estava o movimento, etc., e há cada 15 dias o Cortez visitava o hotel, normalmente ficando três dias em cada visita.  Para isso, ele mantinha ate um escritório montado para seu uso exclusivo, enquanto estava na cidade.  Durante estas visitas ele costumava passar horas reunidos com o gerente-geral, que por sua vez ficava incomunicável, pois as reuniões com Cortez não podiam ser interrompidos, sob hipótese alguma. Foi justamente numa dessas ocasiões que ocorreu um caso inusitado, que passarei a contar no capitulo seguinte. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Trocando Cornell University por São Paulo

        Uma das vantagens que eu desfrutava como gerente do Hotel Castro Alves foi a participacao nos diversos cursos de treinamento que o grupo Othon promovia permanentemente, para seus administradores.  Os cursos eram dirigidos principalmente para a area de administracao, como um todo, e tinham bastante proveito pratico para os problemas do dia a dia.  Outro curso de grande valia foi de "Chefia e Lideranca", materia muito importante para qualquer gerente.  Alvaro Bezerra de Mello,  o Diretor Executivo de Hoteis Othon, era o grande entusiasto e incentivador desses cursos.  No final de 1971, ele me chamou e disse, “No proximo ano, eu quero que voce faca o “summer school” em Cornell University.  Voce ficara la por sete semanas.  Vou providenciar a sua inscricao”  Isso era um premio  enorme por mim.  O curso de Cornell  era reconhecido como o maximo em materia de hotelaria, e era considerado um privelegio enorme poder estudar la.  Apos algumas semanas de espera angustiantes, finalmente chegou a confirmacao da minha inscricao no curso, e a partir dai comecei a contar os dias ate eu embarcar. Meu destino, entretanto, acabou sendo outro, pois antes de chegar a hora de partir para Cornell, minha carreira deu outra guinada, que em vez de me levar para o Cornell, acabou me levando para Sao Paulo.  Foi assim que aconteceu; No final de 1970, o Othon havia contratado um gerente novo para o Hotel Trocadero, Daniel Cortez, um cabo-verdiano de nacionalidade portuguesa, que havia feito uma carreira nas cadeias Sheraton e Intercontinental, tendo chegado ao cargo de gerente-geral de  grandes hoteis em ambas estas cadeia, embora ainda bastante joven.  Dizem, entretanto, que se meteu em alguma confusao nas Filipinas, e isto o obrigou a deixar o pais, e foi assim que ele chegou ao Brasil buscando novas oportunidades.  Foi um momento muito oportuno, pois coincidia com a tentativa de Hoteis Othon em modernizar sua administracao para fazer frente a iminente chegada no pais das cadeia internacionais.  O Cortez representava a modernidade, e o futuro.  Falava do “uniform system of accounts” - a biblia da contabilidade hoteleira internacional -com muita eloquencia, e mostrava como se devia organizar um demonstrativo de lucros e perdas, como se devia atribuir centros de custos para todos os departamentos do hotel, e, acima de tudo, demontrava como se podia tornar um hotel mais lucrativo. Era tambem um profundo conhecedor da area de alimentos e bebidas, e um eximio analista de operacoes, Se, “em terra de cego, quem tem olho e Rei”, o Cortez de tornou um verdadeiro Imperador.  Apos poucos meses gerenciando o Hotel Trocadero em Copacabana, foi enviado para Sao Paulo para assumir a gerencia-geral do Othon Palace Hotel, com carta branca para realizar todas as reformas, tanto fisicas como administrativas, para tornar o hotel competitivo com o Hilton.  Modificou completamente o organograma do hotel, implantando um modelo muito similar ao que ate hoje e usado na grande hotelaria, mas que na epoca era uma novidade completa.  Reformou todos os apartamentos do hotel, e todas as areas publicas, incluindo o restaurante e bar, um dos mais movimentados do centro de Sao Paulo, na epoca.  O trabalho foi tao bem sucedido que, depois de 18 meses, Cortez foi promovido ao cargo de Superintendente de Operacoes do grupo, responsavel por todos os hoteis da cadeia.  Contratou um suico, com experiencia na cadeia Intercontinental na Africa, para substituir-lo em Sao Paulo, e mudou-se para Rio de Janeiro para assumir o novo cargo.  Uma das caracteristicas mais marcantes da personalidade de Cortez era a vaidade.  Numa epoca em que carros importados no Brasil era quase uma exclusividade do corpo diplomatico, Cortez circulava pela cidade com seu automovel Mercedes-Benz, placa DC-1938 (Daniel Cortez, seguida pelo seu ano de nascimento).  Enquanto estava em Sao Paulo, havia trazido tres ou quatro assessores do exterior, e esses agora o acompanharam para Rio.  Cortez exigia absoluta lealdade a sua pessoa. Era quase maniaco em relacao a exigencia de haver respeito absoluto a hierarquia interna.  Nao admitia, de forma alguma, qualquer desvio a esse principio.  Trabalhar para Cortez, era quase como mudar de emprego.  Deixava de trabalhar para o Othon, e passava a trabalhar para Cortez.  Era assim que funcionava.  Nos primeiros meses no novo cargo o Cortez praticamente me ignorou, mas, certo dia, inesperadamente, apareceu num final de tarde no Castro Alves, acompanhado de um assessor.  Em vez de se dirigir ate meu escritorio, sentou-se na sala de estar do hotel, e mandou me chamar.  La chegando, mandou-me sentar e foi logo ao assunto, “Eu sei que voce esta inscrito no curso de verao do Cornell University”  “Sim, senhor, e uma grande oportunidade, e estou muito ansioso para o curso comecar”, “Eu tenho uma outra proposta para voce.  Como voce deve saber, ja fiz a completa reorganizacao e reforma do Othon Palace em Sao Paulo, que agora sera um modelo para o resto da companhia.  Contratei um experiente profissional suico para assumir a gerencia geral do hotel, mas falta-lhe experiencia no Brasil.  Estou lhe oferecendo a opportunidade de assumir a sub-gerencia executivo do Othon Palace, reportando-se diretamente ao gerente-geral”  E ai, Cortez fez uma pausa, olhou com desdem as modestas intalacoes do Castro Alves, e disse, “sera uma oportunidade para voce comecar a aprender a verdadeira administracao hoteleira”  “E quanto ao curso em Cornell?”, perguntei.  “Voce tera que cancelar sua participacao no curso”, veio a resposta, e depois de outra pausa, completou “mas eu garanto que com seis meses trabalhando na minha equipe, voce vai aprender muito mais do que se pasasse quatro anos em Cornell.  Bem, eu lhe dou 24 horas para pensar no assunto, e aguardo sua resposta ate amanha".  “Nao preciso de 24 horas” respondi na hora “Ja decidi, aceito a sua proposta”  Cortez me olhou fixamente por alguns segundos, e ja levantando, me disse “Muito bem”, voce se apresenta em Sao Paulo na proxima segunda-feira.  Minha secretaria vai lhe contactar para providenciar as passagens”.  "E quem vai ficar no meu lugar no Castro Alves?", perguntei, "Isso depois eu resolvo" me respondeu Cortez, como se fosse um assunto de menor importancia,  Era maio de 1972, e eu tinha acabado de completar 26 anos de idade.  Eu ainda nao sabia, mas neste momento eu tinha dado um passo decisivo,  que teria desdobramentos e consequencias para o resto da minha carreira!

sábado, 7 de maio de 2011

Antes do Começo

Antes do Comeco........                                                  





Nasci no ano de 1946 na cidade de Accrington, pequena cidade no condado de Lancashire, no norte da Inglaterra.  A regiao de Lancashire era o centro da industria textil na Inglaterra, que havia conhecido seu apogeu no final do seculo 19, para depois entrar num longo periodo de declinio, ate finalmente se extinguir por completo, mas em 1946, a industria ainda sobrevivia.   Foi a epoca pos-guerra, e Inglaterra, quase falida pela segunda guerra mundial, vivia um periodo de grande austeridade.  Os hospitais estavam cheios de soldados ainda se recuperando dos ferimentos da guerra, e consequentemente nasci na casa dos meus avos, com a minha mae sendo assistida no parto apenas por minha avo e a parteira da regiao, como era usual.  Ficaram todos surpresos entretanto ao constatarem que nao era apenas uma crianca que nascia, mas duas, pois eramos gemeos, eu, e minha irma!  Como tudo estava preparado para apenas uma crianca, o meu primeiro berco foi uma gaveta improvisada, o que pelo menos me permite afirmar, categoricamente, que “nao nasci num berco de ouro!” Sempre me condiderei uma pessoa de sorte, e a primeira sorte foi ter nascido dez minutos antes da minha irma, que me concedia durante nossa infancia uma certa ascendencia em relacao a minha irma, pois , nas discussoes, a falta de uma melhor argumentacao era sempre resolvida com um “cala a boca, pois sou mais velho que voce!”  Nao sei como teria sido a minha vida se eu nao fosse assim!



Quando eu tinha quatro anos de idade, meus pais vieram  para Brasil, mais precisamente para Recife, onde meu pai foi contratado para trabalhar no grupo Othon Bezerra de Mello, que tinha interesses na area textil e acucareira.  Meu pai era contador de formacao, e sendo natural de Lancashire, tinha um grande conhecimento da area textil.  Naquele tempo, muitas empresas brasileiras contratavam profissionais na Inglaterra, em funcao de existir uma carencia de mao de obra qualificada no Brasil, e no grupo Othon havia dezenas deles.  O contarto do meu pai com o grupo era de tres anos, apos o qual ele pensava em regressar para Inglaterra.  Eramos para ter vindo ao Brasil de navio, mas duas semanas antes de viajar eu e minha irma contraimos sarampo, e a viagem teve que ser adiada.  Para compensar o atraso, resolveu-se que nao viajariamos mais de navio, e sim de aviao, e foi assim que finalmente embarcamos num constellation do Panair do Brasil para a viagem de Londres a Recife, com escalas em Paris, Lisboa, e Dacar.  Nunca vou esquecer o impacto que me causou a nossa chegada no aeroporto dos Guararapes em Recife.  Era meio-dia, no mes de dezembro, e o calor, e a claridade um total contraste com o frio e escuridao de Accrington!  Ficamos hospedados por alguns dias no “Pensao dos Ingleses” no centro de Recife, e depois mudamos para uma casa proxima a praia no bairro de Boa Viagem, um local considerado distante do Centro, e onde so havia casas, algumas das quais residenciais, mas a maioria de veraneio.  Meu Pai, vestindo ternos de linho branco, como era o costume,  saia para trabalhar cedo, pois o trabalho se desenvolvia em dois turnos, o primeiro das 7 as 11hrs, e o segundo das 14 as 18hrs.  Com isso, meu Pai almocava todo dia em casa, e nos iamos ao ponto do onibus aguardar sua chegada, sempre no mesmo horario pois nao havia engarrafamentos.  Desse tempo tenho muitas recordacoes da praia de Boa Viagem, para onde iamos todos os dias.  Nao havia tubaroes com os quais se preocupar, mas havia muitas aguas-vivas, principalmente as temidas caravelas portuguesas, para as quais tinhamos que estar sempre atentos.  Nos fins de semana, frequentavamos o “British Country Club”, vizinho do Clube Nautico Capibaribe na Avenida Rosa e Silva.  Tratatava-se de um tipico clube ingles da era colonial, onde as senhoras sentavam na varanda tomando cha, enquanto os homens jogava cricket , ou tenis, ou entao sinuca, e a noite todos tomavam seus “gin and tonics” no amplo bar.  Enquanto isso, nos criancas brincavamos soltos nos amplos jardins, longe dos adultos.  Na pereferia do clube estava situada a igreja anglicana, que tambem funcionava como uma escola primaria.  E que naquele tempo, havia aproximadamente 700 familias britanicas morando e trabalhando em Recife, e todos frequentava o clube.

Seis meses depois de termos nos instalado em Boa Viagem, meu Pai chegou em casa um dia com a noticia que iriamos mudar para o interior de Pernambuco, pois ele havia sido promovido ao cargo de Chefe de Escritorio de uma usina de acucar pertencente ao grupo em Rio Una, um pequeno vilarejo proximo a Barreiros,  perto da fronteira com Alagoas e foi la que acabamos passando os proximos dois anos, sendo que, uma vez por mes, passavamos um final de semana em Recife, sempre hospedados no “Pensao dos Ingleses”, e sempre frequentando o “British Country Club”.   A viagem de carro, ou de jipe, entre Recife e Rio Una era sempre uma grande aventura e levava umas quatro horas em estradas de terra batida.  Os carros e caminoes que passavam levantavam nuvens de poeira, e era preciso cobrir o nariz e a boca com lencos para proteger da poeira.  Na epoca de chuva, a estrada ficava simplesmente intransponivel, e passavamos tres ou quatro meses sem conseguir visitar Recife.

A vida em Rio Una era muito pacata comparada com Recife, mas mesmo assim tinha um ritmo proprio toda especial. O vilarejo nao tinha mais que quinhentos moradores, e o local era dominado pelo imponente presenca da  usina de acucar. Fora a usina, havia o escritorio central, onde meu pai trabalhava; um posto medico; uma unica rua de terra batida, com casas pequenas de um lado e casas um pouco maiores do outro lado; uma quitanda; um acougue, e subindo um pequeno morro, a “casa grande”, e a igreja – na verdade uma pequena capela.  Quando chegamos, moramos inicialmente na “casa grande”, cercado de mordomias de todos os lados, mas depois foi construida uma casa nova proxima a “casa grande” onde finalmente fomos morar.  Eu e minha irma logo ganhamos um cavalo de presente, e todas as tardes saimos para passear nas redondezas, pois as manhas eram ocupados com aulas de alfabetizacao, administradas por nossa mae, com o auxilio de um curso por correspondencia vindo da Inglaterra.  Tambem visitavamos frequentemente as lindas praias de Tamandare, e Sao Jose da Coroa Grande,  - praias absolutamente desertas na epoca – e que hoje sao reconhecidas entre as mais belas praias do nordeste.  Havia muita atividade em torno da igreja, que realizava procissoes em todos os dias santos e que a noite se transformava em festas na praca central, mas o evento mais aguardado era a chegada do cinema intinerante, que ha cada dois meses montava um barracao de lona na praca central, e cada morador levava sua propria cadeira para sentar e assistir o espectaculo.

Em pouco tempo de convivencia, eu e minha irma ficamos bem enturmados com a garotada local, e  tinhamos uma vida muito livre e solta, andando por todos os lugares.  Me lembro certo dia que alguem no vilarejo havia morrido e ia ser enterrado em Barreiros, a cidade proxima, pois nao havia cemeterio em Rio Una.  Nao pensamos duas vezes, e subimos no caminhao que transportava tanto o caixao como os familiares e amigos do defunto, e fomos acompanhar o enterro em Barreiros.  Me lembro chegando tarde em casa e nossa mae perguntando “Onde e que voces andavam?”, e respondemos, com toda naturalidade “ah, tivemos acompanhando um enterro em Barreiros”.  Outro truque que aprendi com os garotos locais era de pular nos vagoes dos trens que traziam a cana para ser moida na usina.  Aguardavamos num barranco nas proximidades de uma curva, que obrigava o trem a andar mais devagar, e quando o tren passava pulavamos  em cima da monte de cana de acucar e jogavamos a cana para fora para depois mastigar.   Era uma brincadeira perigosa, pois qualquer escorregao seria fatal, mas nao pensavamos no perigo.

Foi neste periodo que fui assistir meu primeiro jogo oficial de futebol.  O time local de Barreiros estava disputando um campeonato regional, com chances de sagrar-se campeao caso vencesse o ultimo jogo, que seria jogado no campo de Barreiros, um estadio acanhado com instalacoes precarias.  A expectativa na cidade em torno do jogo era enorme e meu pai resolveu me levar para assistir ao jogo.  No inicio tudo trancorria bem, pois o primeiro tempo termonou com Barreiros vencendo o jogo por 1 x 0.  Em meados do segundo tempo, entretanto,o juiz marcou um penalty contra Barreiros, e iniciou-se uma grande pancadaria no campo que logo tomou conta de todo o estadio.  Foram dados muitos tiros para o alto, e foi uma correria louca para escapar da confusao.  Me lembro chegando  em casa e meu pai jurando nunca mais comparecer num jogo de futebol no Brasil.  Jura, alias, que nao cumpriu, pois me lembro anos mais tarde ele me levando para assistir Botafogo x Canto do Rio no General Severiano, e Santos x Benfica, no Maracana, pelo campeonato Mundial de Clubes - mas isso ja e outra historia!

Em meados de 1953, ja havia passado dois anos e meio do contrato do meu Pai  com o Othon, e eu e minha irma ja estavamos com sete anos de idade, e precisando comecar o colegio.  Como Othon havia solicitado ao meu pai para permanecer por mais seis meses no Brasil, meus pais resolverem que seria melhor eu e minha irma voltar logo para Inglaterra para poder comecar as aulas no inicio do ano letivo ingles no mes de agosto, e ficariamos morando na casa dos nossos avos em Accrington, entao mudamos mais uma vez de continente, e trocamos o sol e calor do nordeste brasileiro pelo frio e cinzento Inglaterra, e foi assim que minha nossa mae nos levou de volta para Inglaterra, enquanto meu pai continuava trabalhando no Brasil.  A volta de Recife para Inglaterra foi feita no navio Alcantara, pertencente a Royal Mail Lines, e foi simplesmente espectacular, pois a gente passava o dia inteiro brincando com as muitas outras crianca a bordo.  Um dia, foi permitido aos passageiros visitar a ponte do comando, e o Capitao permitiu que eu ficasse alguns minutos segurando o “wheel”, como se estivesse de verdade “dirigindo” o navio.  Corri para contar a novidade para minha mae, e ela respondeu “bem que eu senti o navio fazendo uns zigue-zaques!”.  Me lembro bem a passagem pela baia de Biscaia, quando pegamos uma tempestade enorme que fazia o navio balancar muito.  Tinha sido proibido utilizar a piscina pois a agua da piscina corria de um lado para o outro com o balancar do navio.  Mesmo assim,jogamos os botes salva-vidas dentro da piscina e ficamos em cima deles sendo jogados de um lado para o outro, ate um tripulante descobrir e mandar todo mundo sair immediatamente.

Chegando na Inglaterra, fomos morar na casa dos meus avos em Accrington.  Minha mae ficou conosco algumas semanas ate comecar as aulas e ai voltou para Brasil.  Passamos entao quase um ano morando com nossos avos, que eram pessoas simples, mas muito boas, ate nossos pais retornar e ai fomos morar com eles numa outra casa, tambem em Accrington.  Nesta altura, eu  ja havia me tornado torcedor do Accrington Stanley, o time de futebol local, que disputava a terceira divisao ingles, e assistia quase todos os jogos quando o time jogava em casa.  Quando eu tinha  onze anos de idade, meu pai mudou de emprego e fomos morar em outra cidade, Ilkley, uma cidade pequena mas muito bonito perto de Leeds, onde meu pai trabalhava.  Logo depois disso passei a frequentar um colegio interno so para meninos, o Hutton Grammar School, onde passei os proximos tres anos.  O colegio interno era uma dureza, com uma rigida disciplina, que mais parecia um quartel do exercito, mas aos poucos fui me adaptando.  Felizmente, sempre fui bom nos esportes, e isso era uma qualidade fundamental para se entrosar bem com os outros e fazer amizades.  Mesmo assim, sentia muitas saudades de casa, principalmente porque nesta epoca minha mae ficou doente e teve que ser internada num hospital, e nao era permitido que eu fosse visitar-la.  Varias vezes pensei em fugir do colegio, mas nao era facil driblar os professores e monitores que ficavam de olho o tempo todo!  Finalmente, acabei me adaptando, e gracas a habilidade de fazer amizades, acabei ate gostando do colegio.  Nas ferias de pascoa de 1960, meus pais vieram com uma grande novidade.  Meu pai tinha aceito um convite para voltar a trabalhar no grupo Othon, desta vez no Rio de Janeiro, e iria assumir o novo posto dentro de seis meses.  “Voce quer continuar estudando em Hutton, e passar as ferias na casa dos seus avos, o quer vir conosco para Rio de Janeiro , onde voce pode estudar no “British School of Teresopolis”, um internato misto?”, perguntou meu pai, me mostrando um folheto do colegio de Teresopolis.  O folheto mais parecia um propaganda para uma colonia de ferias, com mocas e rapazes brincando na piscina, andando de cavalo, e jogando voleibol.  So a ideia de estudar num colegio interno misto ja me agradava, e nao tive duvida em responder “Eu vou para o Brasil!”

E foi assim, que em outubro de 1960, e mais uma vez de navio, fizemos a travessia do oceano Atlantico, ate Rio de Janeiro.  Chegando no Rio, ficamos hospedados no Hotel Aeroporto no centro da cidade, mas logo fomos morar num apartamento alugado no Leme.  Nosso apartamento dava frente para Av. Gustavo Sampaio, mas o predio tinha duas frentes, uma dando para Gustavo Sampaio e a outra para Av. Atlantica.  A ma noticia que recebemos ao chegar no Rio era que o “British School of Teresopolis” nao desfrutava de uma boa reputacao, e, seguindo o conselho do padre da igreja anglicana, meus pais resolverem nao nos matricular la.  Em 1960, o British School de Botafogo, que nada tinha a ver com o colegio de Teresopolis, so tinha alunos ate completarem 14 anos, apos o qual os alunos iam estudar na Inglaterra.  Como nao falavamos portugues, o jeito foi de ir estudar na Escola Americana, localizada ainda na Rua General Urquiza no Leblon, onde acabei estudando do nono ate o decimo-primeiro ano.  De todas as adaptacoes que tive que fazer ao longo da vida, talvez a mais dificil foi a adaptacao de um colegio internato ingles, so para meninos, para a Escola Americana do Rio de Janeiro.  Alem do sistema de ensino ser completamente diferente, toda a cultura da escola era diferente.  Eram dois mundos totalmente distintos!  De qualquer forma, acabei me adaptando, ajudado mais uma vez pela pratica de esportes, pois fiz parte do primeiro time oficial de futebol de salao montado pela escola, e tambem fazia parte da equipe de atletismo.  Em 1962 mudamos de Leme para Leblon, que ainda era um bairro super-tranquilo.  A Avenida Ataulfo de Paiva ainda era de paralelepepios e os bondes andavam nas duas direcoes.  Frequentava muito a praia e jogava futebol com os amigos na Praca Antero de Quental.  Nada mal!  Nesta epoca, influenciado cetamente pelas viagens de navio que havia feito, eu tinha um verdadeiro loucura pela marinha mercante, e queria de qualquer maneira seguir uma carreira naval.  Quando meus pais me convencerem que a era de transporte de passageiros maritimos estava no fim, passei a fixar meus objetivos na Marinha Real inglesa, e por pouco nao voltei a Inglaterra para frequentar e escola naval de la.  De qualquer forma, meus pais queriam que obtivesse o diploma do curso secundario na Inglaterra, e assim, em 1963, com 17 anos de idade, retornei para a mesma escola interna na Inglaterra que eu havia frequentado das 11 aos 14 anos.  Se adaptar de um colegio interno ingles para a Escola Americana do Rio de Janeiro ja havia sido dificil, imagine o que foi fazer o caminho inverso tres anos depois!  Entretanto, apesar de tudo, acabou sendo uma experiencia positiva.  Para comecar, encontrei com varios antigos amigos, e logo percebi que a minha ausencia de tres anos no Brasil havia feito crescer um certo aura de admiracao em torno da minha pessoa.  Eu ja tinha sido popular antes, mas ao retornar, mais velho, todos me tratava com muita deferencia!  Para completar, com a passagem pela Escola Americana, eu havia adquirido um leve sotaque americano, e como em Lancashire isso nao era comun, tambem somava, principalmente com as garotas locais, com as quais a gente se encontrava.  Era a epoca dos Beatles e dos Rolling Stones, que gerou uma epoca de muita rebeldia em relacao as tradicoes e autoridades constituidas, inclusive do colegio.  Apesar de ter sido nomeado “Monitor” ao chegar no colegio, e portanto ter a obrigacao de zelar pela manutencao da disciplina, mergulhei de cabeca nesse clima de rebeldia e logo me tornei um especie de lider de um movimento de contestacao, que questionava o regulamento interno e disciplina vigente.  Junto com mais meia duzia de alunos, aprontavamos barbaridades, e infernizavamos a vida dos professores e diretor do colegio, mas, aos poucos, fomos ganhando concessoes que eram impensaveis poucos anos antes.  Apesar de eu nao ter jogado rugby por tres anos, em poucas semanas de retorno eu ja fazia parte do time principal da escola, e ganhei o direito de marcar a  lapela do blazer do uniforme escolar com os numerais romanos XV, indicando que fazia parte dos quinze jogadores do time principal.  Nada no colegio dava mais prestigioso entre os alunos do que isso.  Passado o inverno, a temporada de rugby terminou e comecou do cricket.  Tambem, em pouco tempo, eu estava no time principal, e ai ganhei  o direito de decorar a outra lapela do blazer com os numerais XI, que denotava que fazia parte do time principal de cricket.  O aluno que ostentava o XV numa lapela, e o XI na outra, so faltava ser carregado no colo – era o prestigio maximo.  Para completar meu prestigio desportivo, eu era o aluno mais veloz da escola, e fazia parte da equipe de atletismo da escola, e no torneio anual da escola conquistei a medalho de ouro nos 100, 200, e 400 metros rasos, sendo que neste ultimo, estabeleci um novo tempo recorde para a prova.  Foi de fato o apogeu da minha carreira esportiva.   Na medida que crescia meu prestigio entre os alunos, decrescia meu prestigio com os professores e o diretor.  Com excecao de um ou outro professor, que realmente motivaram os alunos, a maioria apenas se valiam da autoridade e da disciplina, e esses eu e minha turma combatiam, sem piedade.  Faltando poucos semanas para terminar o ano, acabei sendo  “rebaixado”, perdendo a condicao de monitor, e alertado que eu estava a um passo da expulsao do colegio, o que seria visto como algo muito negativo para o meu futuro, mas consegui sobreviver esta ameaca sem maiores problemas .  Em termos de estudos, foi um ano perdido.  Nao me dediquei aos livros, e as mudancas de sistemas de ensino do ingles para a americana e de volta para o ingles havia deixado lacunas em muitas areas que seriam dificeis de serem superados, mesmo que eu tivesse me esforcado.  No campo desportivo, e ate pessoal, acho ate que valeu, e ao voltar para visitar o colegio quatro anos depois, deparei com uma placa em meu homengem que os alunos mais novos haviam fixados no ponto mais alto do dormitorio – uma grande honra!

Terminado o colegio, fui passear na Irlanda durante um mes, com dois amigos do colegio.  Como tinhamos muito pouco dinheiro,dormiamos normalmente em alburguerges da juventude, mas teve dias que nao haviam vagas nos albergues e entao tinhamos que dormir em cima dos bancos dos jardins.  Para andar de um lugar para o outro,pediamos carona nos caminhoes, ou entao em carros particulares.  Antes de chegar na Irlanda, pouco conheciamos das divisoes internos no pais, mas apos um mes de vivencia haviamos feito um verdadeiro curso intensivo sobre as questoes politicos e religiosos locais.  Embora era uma epoca de relativa tranquilidade na Irlanda, o grau de animosidade existente entre os catolicos e protestantes na Irlanda do Norte era impressionante, e nao era dificil perceber que uma solucao negociada nao seria nada facil de conseguir.

Passado as ferias na Irlanda, ainda passei dois meses dando assistencia a minha avo, que ficou um tempo hospitalizada, mas depois que ela se recuperou, regressei para Brasil, e Rio de Janeiro.  A primeira coisa que fiz ao chegar foi ter aulas de portugues, para melhorar meu conhecimento gramatico e escrito da lingua, para depois procurar emprego.  Pensava inicialmente em buscar uma oportunidade no setor de turismo, onde meu ingles fluente seria util, mas antes que podia concretizar este plano, surgiu uma outra oportunidade, imperdivel, e que acabaria definindo o rumo da minha vida dali para frente.  Um dia, meu pai chegou em casa com a noticia que Hoteis Othon estava selecionando candidatos para um programa de “Trainee”, e que Alvaro Bezerra de Mello, sabendo que eu buscava uma colocacao na area de Turismo, havia perguntado se eu nao queria me candidatar.  Embora a minha primeira vocacao tinha sido trabalhar na marinha mercante, preferencialmente num navio de passageiros, a ideia de hoteis sempre tinham me fascinado.  De uma certa forma, eu via hoteis como se  fossem navios ancorados, tanto e que eu era capaz de citar de cor, e na sequencia certa, todos os hoteis existentes na Avenida Atlantica.  Fui entao fazer os testes e as entrevistas, e depois de alguns dias veiro a noticia que eu havia sido selecionado, junto com mais dois jovens, um frances, e o outro alemao.  Era impressionante, mas, na epoca, os brasileiros da classe media nao se interessavam em seguir uma carreira hoteleira, e a ideia de passar dois anos trabalhando em todoas as funcoes existentes num hotel nao atraia muitos candidatos.  Sorte minha, pois a concorrencia era pouca!  Definido a minha selecao, a primeira providencia foi tirar a carteira profissional.  Fui no Ministerio de Trabalho com toda a documentacao necesaria, e depois de algumas horas na fila de espera, chegou a minha hora de ser atendido.  “Qual e a sua profissao?”, perguntou-me  o funcionario, pois esta era uma informacao obrigatoria que constava na carteira.  “Nao tenho profissao”, respondi, “vou ser um estagiario”.  O funcionario consultou um enorme livro que estava sobre a mesa, e depois de alguns minutos me disse “Estagiario nao e profissao, entao nao serve, o que e que voce vai fazer, exatamente?”  “Vou fazer um pouco de tudo”, respondi.  “Ummm, um pouco de tudo, entao voce vai ser Auxiliar de Servicos Gerais” ele decretou, e assim recebi orgulhosomente minha primeira carteira profissional, e o mais novo “Auxiliar de Servicos Gerais” da cidade estava pronto para encarar o trabalho.




sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Uniform System of Accounts for Hotels

Ate o inicio da decada de `70 o estilo gerencial adotado pelo grupo Othon estava baseado no modelo classico europeu, com uma grande enfase em servico, e pouca cobranca em termos de resultados.  A administracao estava fortemente concentrado no Escritorio Central, que praticava tomavam todos as decisoes que afetavam o resultado financeiro de cada hotel.  O gerente de cada unidade era acima de tudo um burocrata, responsavel por implementar as decisoes tomadas pelo Escritorio Central, alem de cuidar do dia a dia operacional do hotel, mas nada de autonomia ou inovacoes.

No inicio de 1971 tudo isso comecou a mudar.  O Othon, que ate entao dominava completamente o mercado hoteleiro carioca, comecou a se preocupar com a anunciada vindo ao Brasil dos grupos hoteleiros estrangeiros.  O primeiro desses hoteis, o Sao Paulo Hilton, abriu suas portas na Avenida Ipiranga em outubro de 1971, e ja se anunciava a construcao no Rio do Sheraton, do Intercontinental, e do Meridien, entre outros.  O proprio grupo Othon tambem pensava no futuro, e anunciava a construcao de tres novos grandes hoteis, o Rio Othon Palace, o Bahia Othon Palace, e o Belo Horizonte Othon Palace.  O que estes hoteis novos tinha em comum era o tamanho, todos muito maiores que os antigos.  Era claro para Othon, que para administar estes novos mega-hoteis precisaria modernizar o sistema gerencial, e que nao seria possivel manter o estilo demasiaamente centralizador. 

Uma das primeiras providencias tomadas foi a adocao do "Uniform System of Accounts for Hotels", um sistema contabil  padrao adotado por todas as cadeias internacionais, e que tinha como resultado a possibilidade de criar centros de custos para todas as areas operacionaisdo hotel, e em consequencia disso elaborar orcamentos setoriais detalhados, alem de auferir o resultado de cada setor do hotel.   Novamente, eu tive a sorte em que o Hotel Castro Alves, por ser um hotel menor, foi escolhido para ser o piloto dessai mplantacao.  Foi contratado um consultor americano para orientar e guiar o processo, e durante 90 dias tive o privelegio de ter aulas diarias sobre todos os aspectos ligados a este sistema.  Foi um sorte enorme, pois me tornei quase um expert num assunto que muito poucos hoteleiros no Brasil conheciam, e este fato foi fundamental para o prosseguimento da minha carreira, numa etapa posterior. 

Ja comentei antes que o Hotel Castro Alves foi o primeiro hotel do Brasil a instalar frigobares nos apartamentos.  Mas foi tambem o primeiro hotel do Brasil a operar dentro do conceito do "Uniform System".  Desses dois pioneirismos, certamente o segundo foi a mais importante para a minha carreira!

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um Hotel Agitado

        Um outro evento que me deu bastante trabalho no Hotel Castro Alves foi a hospedagem de um grupo promovido pelo clube de viagens  Nomad`s Club, para o Carnaval de 1970.  O grupo havia reservada e paga um total de 30 apartamentos - quase 40% da capacidade do hotel - e a única coisa que sabíamos a respeito do grupo era que todos eram americanos, e cada um dos 30 apartamentos reservados seriam ocupados por duas pessoas,  e que passariam uma semana no hotel, ou seja, nada diferente que o usual.  Imaginem então a nossa surpresa quando o grupo desembarcou em frente ao hotel e notou-se logo que o grupo era composto exclusivamente de gays nova-iorquinos, vindo se divertir no Carnaval carioca.  Hoje em dia, tal fato não chamaria qualquer atenção, mas em 1970 foi um verdadeiro escândalo. Logo após terem chegado, os componentes do grupo trocaram de roupa e foram para a praia,  mas em vez de se vestirem com roupas de banho tradicionais, estavam todos vestidos com roupas de banho coloridos, estilo anos 20.   Juntava um multidão de pessoas para assistir-los, e houve muita confusão, pois estamos falando de 1970, quando ainda predominava muita intolerância com os gays.   Alguns  hospedes tradicionais do hotel se revoltaram quando perceberam que quase metade do hotel seria ocupado por hospedes gays, e chegaram a iniciar um protesto exigindo que o grupo fosse expulso do hotel.   Quando perceberem que isto não iria acontecer, uns queriam chamar a policia, enquanto outros ameaçavam processar o hotel - enfim, um enorme confusão, e eu no meio tentando acalmar os ânimos!   Felizmente, com o passar dos dias, os ânimos foram acalmando, mas todos as noites o grupo se juntava em  algum apartamento para fazer uma festa, sendo que cada dia que passava tinha mais amigos brasileiros convidados.  Quando chegava as 10  horas da noite entrava em vigor o lei do silencio, e eu tinha que ir no apartamento acabar com a festa - uma tarefa nada fácil - mas felizmente acabava sendo atendido.  Era um grupo muito alegre e espirituoso, mas não gostavam de brigas e confusão.  Bem, foi uma semana das mais movimentadas, e talvez ate histórico, se foi de fato o primeiro grupo declaradamente gay a visitar a cidade, mas confesso que respirei aliviado quando o Carnaval terminou e o grupo retornou a Nova York! 

       Outro grupo que me deu trabalho foi a hospedagem de um grupo de 30 adolescentes chilenas, todas alunas de uma importante escola de Santiago, acompanhadas por três ou quatro professoras.  Na época, tínhamos acabado de instalar frigobares nos apartamentos e isto era visto como um serviço inovador pois quase nenhum outro hotel dispunham desse tipo de serviço.  Os frigobares eram estocados com águas e refrigerantes e uma variedade de bebidas alcoólicas em garrafas miniaturas.  Numa certa noite, após as professora terem checadas que todas as jovens estavam dormindo, e se recolherem, as meninas resolverem se juntar num apartamento e começaram a experimentar as bebidas miniaturas.  Não tardou muito para uma delas sugerir que seria engraçado ver quantas delas poderiam caber dentro do elevador, que tinha uma capacidade autorizada para seis passageiros.  Bem, conseguirem colocar 15 meninas no elevador, e tentaram descer do quinto para o quarto andar.  Só que o elevador, não parou no quarto andar, desceu lentamente ate o poço do elevador.  O recepcionista noturno conseguiu abrir a porta do térreo, mas só tinha aproximadamente 20 centímetros de espaço entre o teto do elevador, e o piso do andar térreo, espaço insuficiente para tirar uma pessoa com segurança.  Eram duas horas da madrugada, e tinha que chamar o plantão da manutenção dos elevadores, para tirar o elevador do poço.  Enquanto isso, o calor era insuportável, e as colegas das meninas que não haviam entrada no elevador passaram a jogar copos de agua pela abertura para refrescar as meninas presas.  No fim, levou quase uma hora para que fossem retiradas.  Enquanto estiveram presas, conseguiram manter a calma, mas quando finalmente foram liberadas, todas tiverem um crise de choro, algumas desmaiavam, e o lobby do hotel ficou completamente tomada com adolescentes chilenas deitadas no chão, todas de pijama, molhadas dos pés a cabeça.  Uma cena e tanto para os poucos hospedes que presenciaram o fato. 



sábado, 9 de abril de 2011

Um Final de Semana Movimentado

         O Hotel Castro Alves tinham uma clientela composta predominantemente de brasileiros, mas haviam também muitos sul-americanos, principalmente argentinos.  Esses eram geralmente os hospedes mais complicados, e davam muito trabalho, principalmente os mais jovens.  No começo da década de `70 não havia cartões de credito e os pagamentos das contas dos hospedes eram pagas em espécie pelo próprio hospede, ou então por um "voucher" emitido por uma agência de viagens credenciada pelo grupo Othon, para posterior cobrança junto a agência.  Ocorria, entretanto, que muitos  argentinos  queriam pagar as suas contas com “vouchers” de agências que não eram credenciados por Hotéis Othon, e portanto não podiam ser aceitos e as contas tinham que ser pagas em espécie.  Ai os argentinos alegavam que não tinham recursos disponíveis para pagar as contas, e nestes casos o hotel confiscava a bagagem dos argentinos, como garantia de pagamento das contas.  Era uma luta constante, e a disputa frequentemente ia parar  na delegacia policial da Rua Hilário Gouveia.  Felizmente, o Delegado não simpatizava com os argentinos, e as disputas eram sempre  resolvidas a nossa favor.  Outro motivo frequente que motivava uma ida a Delegacia era a recusa por parte do hospede a abrir sua mala para verificar se estivesse levando alguma toalha, ou outro bem do hotel na sua bagagem. E que as arrumadeiras eram responsáveis pelo estoque de roupas existentes nos apartamentos, e se faltasse algum item no inventario mensal, o valor era descontado dos seus salários.  Consequentemente, assim que o hospede deixava o apartamento elas corriam para checar tudo e caso constatassem alguma falta, comunicava a Recepção e o valor do item faltante era lançado na conta do hospede, como Diversos.  Normalmente, ao perceber o lançamento, os hospedes pagavam sem discutir.  Outros abriam as  malas, e devolviam o artigo que levavam como lembrança, e, outros – geralmente jovens argentinos – recusavam a pagar e recusavam a abrir as malas para a necessária conferencia.  Eram esses o casos que iam parar na Delegacia.  Novamente, os casos eram sempre resolvidos a favor do hotel.
         Outro caso envolvendo a Delegacia, mas desta vez numa situação menos favorável, ocorreu em Julho de 1971.  Nesta época, o mês de Julho era um dos melhores meses do ano para a hotelaria carioca, com os hotéis lotando do começo ao fim do mês.  Neste dia, uma sexta-feira, havia mais uma razão para lotar os hotéis, e que no Domingo, no Maracana, o Pele faria sua despedida da selecao brasileira num jogo amistoso contra Yugoslavia.  A cidade estava super-lotado de turistas, e não havia um hotel na cidade que não tivesse 100% de ocupação.  Neste tempo,  a grande maioria das reservas nos hotéis eram feitas "sem garantias", o que significava que a reserva era valida somente ate as 18 horas do dia da chegada, e se o hospede não havia chegado ate esta hora, a reserva era automaticamente cancelada.  A única forma de garantir uma reserva para uma chegada após 18 horas era fazendo um deposito antecipado do valor da diária, ou então ter uma carta de garantia de pagamento de uma empresa, ou então um "voucher" de uma agência de viagens credenciada.  Por causa dos cancelamentos e "no-shows", era  necessário trabalhar com uma certa taxa de“overbooking” para lotar os hotéis, e  nos dias críticos os hotéis aguardavam ansiosamente chegar as 18 horas para cancelar as reservas "não garantidas".   Consequentemente, neste dia, quando uma família Paulista de dez pessoas, incluindo pai, mãe, filhos, sogra, irmão, cunhada, e baba desembarcaram de três carros em frente ao hotel as 22 horas, para ocupar os três apartamentos que haviam reservados no hotel, o recepcionista lamentou muito, mas informou-os que como se tratava de uma reserva "sem garantia", a reserva havia sida cancelada as 18 horas e não havia mais apartamentos disponíveis.  Foi ai que o pai, um advogado forte com quase dois metros de altura produziu um recibo de Hotéis Othon, demonstrado que havia pago naquele mesmo dia as 14 horas, diretamente no caixa do Othon Palace de São Paulo o deposito referente ao valor das três diárias.   Infelizmente, a funcionaria do Othon Palace que recebeu o deposito não deu conta que a reserva era para o próprio dia, e portanto não avisou o hotel por telefone do deposito, simplesmente colocou a copia do recibo no malote, que só chegaria no Rio na segunda-feira.  Enfim, o problema era enorme, e como poderia solucionar-lo pois não havia uma vaga sequer no Castro Alves, nem em qualquer outra hotel da cidade?  Neste dia eu havia ido ao teatro, e só voltei para casa no hotel as 23.30hrs.  Assim, que entrei no hotel, percebi que algo estava errado.  Havia um mensageiro atendendo no lugar do recepcionista, e o  recepcionista noturno estava no escritório cercado por dez pessoas, e mais o sub-delegado da 12 DP, que havia sido convocado pelo advogado, e os dois estavam redigindo um texto legal onde o hotel assumia totalmente a responsabilidade pelo ocorrido, comprometendo-se a pagar indenizacoes vultosas e outras penalidades aos hospedes.  O olhar do recepcionista ao me avistar foi o olhar de alguém que havia sido anistisiado da pena de morte, no ultimo momento.  “Este e o gerente” ele exclamou, apontando na minha direcao, para em seguida retornar a sua posição atrás do balcão da recepção.  E foi assim que tomei conhecimento de todo o ocorrido.  Embora o problema não havia sido causado pelo pessoal do Castro Alves, sabíamos que a falha foi de Hotéis Othon, e portanto cabiam a nos resolver o problema, encontrando accomodacoes para todos.  Comecei telefonando para meus colegas gerentes nos demais hotéis da cadeia.  Explicava a situação e solicitava ajuda, qualquer tipo de apartamento serviria.  Infelizmente nenhum deles poderiam ajudar.  Todos estavam completamente lotados, e vários também enfrentavam problemas de “overbooking”.  Haviam hospedes ate dormindo na rouparia de um dos hotéis.  Passei a ligar para outros hotéis de Copacabana e Flamengo, contando o drama, mas sem sucesso.  Finalmente, decidi mudar de estratégia.  Comecei ligando para os hotéis do centro da cidade, com o seguinte discurso “Olha, preciso de três apartamentos.  Não me importo qual e o preço, e não quero recibo.  Vou ai pagar a reserva em dinheiro.  E para uma noite apenas”  Com essa estratégia, eu consegui os três apartamentos, dois no Hotel Serrador, e um no Hotel Presidente, na Praça Tiradentes.  Quando expliquei aos hospedes onde eram os hotéis que iriam ficar, o advogado me olhou desconfiado, e disse “ Na Praça Tiradentes, que hotel e esse????  Se você colocar minha família num hotel de viracao, eu te arrebento!!!”  “O Hotel Presidente não e um hotel de viracao”, respondi, “E um hotel de família, e eu vou acompanhar-los ate la e vocês vão comprovar o que eu estou falando” E assim foi feito.  Levei os hospedes ate os hotéis, paguei as contas, e voltei ao hotel.  Eram quase três horas da manha. No dia seguinte todos retornaram ao Castro Alves e ficaram hospedados ate segunda-feira. Quando foram embora, o advogado agradeceu muito as atencoes, e saírem felizes da vida.  No Domingo, fui ao Maracana, e assisti Brasil derrotar Yugoslavia pelo placar de 1 x 0.  Na metade do segundo tempo, Pele foi substituído, e deu uma volta olímpica no estádio, debaixo dos aplausos da multidão, antes de sair de campo chorando, e pedindo para cuidar das crianças do Brasil.  Para mim, foi um final de semana de muitas emocoes, para entrar na Historia.

domingo, 3 de abril de 2011

O Hotel Castro Alves

         Nessa altura, eu já tinha acumulado uma razoável experiência na gestão dos hotéis menores, e no final de 1969 surgiu uma grande oportunidade. Fui chamado a sala do Diretor no Escritório Central, e ele, sempre muito formal,  me comunicou “O Gerente do Hotel Castro Alves vai ser transferido para o Hotel Lancaster, e o Senhor vai ser o novo gerente do Castro Alves". Ele me deu uma breve explanação de quais seriam minhas novas responsabilididades, e terminou com uma advertência, "Como gerente,  o Senhor terá que morar no hotel e vai ter direito a desfrutar, gratuitamente, dos serviços do hotel. Lembra-se que isto e um privilegio que não devera ser abusado. O Senhor se limita a pedir comida mais simples, e nada de pedir camarão ou lagosta, ou outros pratos caros.  O consumo de qualquer bebida alcoólica esta excluída desse direito, com excecao de cerveja, desde que consumida, com moderação, durante o almoço ou o jantar.. O Senhor se apresenta no Hotel Castro Alves amanha as 8 horas da manha pois durante uma semana o gerente vai lhe passar o serviço, depois ele vai para o Lancaster. Boa tarde.”  Sai da sua sala meio tonto, mas muito alegre.  Era uma promoção enorme, e embora eu já estava na companhia fazia  quatro anos e meio, eu ainda tinha apenas 23 anos de idade, e seria, de longe, o gerente mais novo da companhia.  Fora isso, a economia que eu faria morando e no hotel seria enorme.  Eu havia casado há apenas três meses, e o aluguel e taxa de condominio dum pequeno apartamento em Ipanema consumia quase a metade do meu salário.  E verdade, que o Hotel Castro Alves era um hotel modesto,  de três estrelas, com 78 apartamentos, localizado na Av. N.S. de Copacabana 552, defronte para a Praça Serzedelo Correia, mas conhecida popularmente na época como “A Praça dos Paraibas”, devido ao grande numero de nordestinos que congregavam-se la aos domingos.  Apesar de modesto,  era um hotel do grupo Othon, e isso bastava para tornar-lo respeitado.  Ao todo, fiquei  dois anos e sete meses como gerente do Castro Alves, e foi sem duvida uma etapa fundamental no desenvolvimento da minha carreira.  Pela primeira vez, eu estava numa posição de comando.  Era eu que tinha tomar todas as decisões importantes, pois no hotel haviam 48 funcionários, e mais o gerente.  O gerente era responsável por tudo, desde a supervisão das áreas operacionais, ate a execução de todo o trabalho burocrático.  Era um verdadeiro "faz de tudo".  Para se ter uma ideia, O gerente era o caixa geral, que fechava o caixa diário e ainda levava o dinheiro e cheques recebidos para depositar no banco.  O gerente era também o chefe de pessoal, que admitia, demitia, advertia, ou suspendia os funcionários, conforme os casos que iam ocorrendo.  Era o gerente que cuidava das reservas, e respondia todas as cartas de solicitação de reservas.  Era o gerente que resolvia qualquer problemas com os hospedes. Era o gerente que preparava o quadro de horários e escalas de revezamento, para todo o hotel.  Era o gerente que exercia a função de chefe de compras, e também de almoxarife.  Era o gerente que controlava o custo de alimentos e bebidas, e era o gerente que confeccionava o relatório diário, fazia os inventários mensais, e ainda mantinham o Escritório Central informados de todo o movimento diário.  Para cumprir todas estas tarefas, era preciso chegar cedo no escritório, sempre antes das 8 horas, e com apenas meia hora para o almoço, era normal trabalhar ate 19 ou 20 , diariamente. Era também obrigatório trabalhar aos sábados, pelo menos ate o meio-dia, e no fim do mês, quando realizava os inventários e fechava todos os relatórios mensais, o trabalho nunca terminava antes de meia-noite.  Era um trabalho  cansativo, mas era também um trabalho muito gratificante.  Nada melhor que executar um serviço sabendo que você e o único responsável , e o orgulho que se sentia ao cumprir todos os prazos, e com um trabalho bem apresentado, era causa de muita satisfação. 
         Uma boa parte do trabalho do gerente dizia respeito ao trabalho burocrático, e nos hotéis menores da companhia, como o Castro Alves, a maioria dos gerentes tinham um perfil mais adequado ao cargo de Chefe de Escritório, de que propriamente Gerente de Hotel.  Mesmo assim, era necessário também supervisionar as áreas operacionais, e pelo duas vezes ao dia, eu fazia uma volta completa pelo hotel.  Com isso, ia tomando contacto direto com cada um dos 48 funcionários, e aos poucos fui formando um otimo espírito de equipe  dentro do hotel.  A minha experiência recente de "trainee" no Leme Palace havia me ensinado muito coisa sobre o valor do funcionário subalterno, e eu estava determinado a me tornar um gerente acessível e mais proximo aos funcionários. Uma das formas que isto se manifestava era na formação da equipe de futebol de praia que disputava jogos e torneios com os outros hotéis.  Ate então, o Castro Alves não disputava esses torneios pois dispunha de poucos funcionários – apenas 48 – e isso incluía as mulheres e vários homens mais idosos que nem sequer podiam jogar futebol, mas logo conseguimos montar nosso primeiro time, e disputar algumas partidas amistosas.  Logo percebemos que era preciso reforçar o time se a intenção era de disputar o campeonato, sem fazer um vexame.  Uma das poucas funcoes que tinham um “turnover” razoável era de faxineiros – o hotel tinha quatro faxineiros – pois quando surgia alguma vaga de arrumador, ou copeiro, ou mensageiro, era preenchido promovendo um faxineiro para a função e contratava um novo faxineiro.  Quando se contratava um novo faxineiro – geralmente jovens com idade entre 18 e 20 anos , buscava jovens que haviam  cumpridos o serviço militar, e dados baixa como reservistas de primeira categoria, sempre um sinal positivo.  Procurava também aqueles que demonstravam ambicoes e tivessem também  atitudes positivas, pois isso era importante para eles seguissem na carreira.   Passamos então a buscar outro atributo nos novos candidatos – que soubessem jogar futebol.  Com esta politica de recrutamento, o Castro Alves foi aos poucos formando um otimo time, -se uma forca respeitada no mundo futebolistica hoteleira.  Chegamos a conquistar vários troféus, e derrotamos hotéis cinco ou seis vezes maiores que nos.  Os troféus conquistados eram exibidos na Portaria de Serviço e eram motivo de muito orgulho para todos.