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terça-feira, 28 de junho de 2011

De volta para o Rio

         No inicio de 1973 o gerente geral suico, que não havia se adaptado bem ao Brasil, deixou a companhia e foi substituído por Eugene Auer, um alemão que Cortez havia recrutado do grupo Westin, no México.  Auer tinha um estilo muito germânico de atuar e as reuniões semanais com os chefes de departamento era um terror para os participantes.  Auer não admitia que as questões pendentes das reuniões anteriores não tivessem sido resolvidos e a cobrança era implacável.  As reuniões eram conduzidas na língua inglesa, pois Auer não falava português, e me recordo de uma cena típica quando ele, aborrecido por causa de uma longa explicação de porque um certo  assunto ainda não tinha ser resolvido, virou para o gerente responsável e gritou  “I WANT ACTION, MR. FONSECA, DO YOU UNDERSTAND? ACTION!!  Cada vez que ele pronunciava a palavra “action” ele socava a mesa com tanta forca que a mesa toda estremecia.  O estilo do  Auer deixava os nervos dos gerentes e chefes de departamentos em frangalhos, mas, pelo menos no curto prazo,deu certos resultados pois ninguém queria se alvo do ira do gerente geral.  Fora esses rompantes nas reuniões, o convívio diário com Auer era bastante agradável e enriquecedor para mim, pois ele era um gerente bem experiente.  Quando ele foi contratado Cortez havia prometido que ele seria designado gerente geral do Bahia Othon, o novo hotel de cinco estrelas que o grupo estava construindo na praia de Ondina em Salvador, mas os  dois acabaram de desentendendo e o Auer acabou deixando o Brasil para continuar sua carreira na Europa, chegando a alcançar o posto de vice-presidente para o Oriente Médio no grupo Sheraton.  Depois de quase um ano em São Paulo, Cortez decidiu me trazer de volta para o Rio,  para ser o Gerente Residente no Leme Palace, e auxiliar o novo gerente geral, um italiano chamado Capelesso que Cortez  havia  recrutado no México, assim como Auer.   Para mim, voltar para o Leme Palace foi muito prazeroso pois eu conhecia o hotel como a palma da minha mao, fruto dos dois anos que eu havia passado no hotel como "trainee", alguns anos antes, mas nao demorou muito tempo para eu perceber que trabalhar com Capelesso nao iria ser nada facil.  Embora se tratava de uma excelente pessoa, de bom coração, bem-humorado, e atencioso com todo mundo, era de longe o mais limitado dos gerentes gerais “importados” com quem trabalhei diretamente.  Na verdade, Capelesso nunca tinha sido gerente geral antes de assumir este cargo no Leme Palace.  No México ele tinha sido o gerente de alimentos e bebidas num hotel da cadeia Hilton e ate para esta função era questionável sua competência.  O que o italiano era na verdade, e o que ele tinha sido durante boa parte de sua carreira, era um maitre d`hotel.  Como maitre, era excelente, um dos melhores, mas como gerente, e executivo, deixava a desejar.   Os problemas com ele começaram logo na sua cocktail de apresentação para os membros do  conselho do Othon quando  ele disse para os conselheiros que em hotel que ele administrava, o custo direto de comestíveis não passava de 28%.  Este percentual era talvez normal na época no México, como e normal hoje no Brasil, mas na  década de `70, pelo menos nos hotéis da cadeia Othon, este percentual flutuava na faixa entre 40 a 45%, e poucos hotéis conseguiam custos abaixo de 40%, inclusive o Leme Palace.  Quando o cocktail terminou, o Cortez virou para o italiano, e disse, “Para que você foi dizer para o conselho que consegue um custo de comestíveis abaixo de 28%?  Eles não entendem nada disso, mas a partir de agora eles vão passar a conferir o custo todo mês e vão cobrar isso de voce.  E bom você ficar de olho!”.  Bem, depois do primeiro mês, o custo de comestíveis fechou com 42%, no segundo mês fechou com 43%, e no terceiro mês fechou com 44%.  O Cortez estava furioso, e cobrava resultados do italiano, e este se convenceu que o problema era com o atual Chefe de Cozinha, e que a solução só viria com a substituição do atual chefe por um chefe da confiança do Italiano, que viria do México.  Depois de alguma hesitação, Cortez acabou concordando com a proposta do Capelesso e autorizou a contratação do novo chefe de cozinha,  claro com grande investimento em passagens, aluguel de apartamento,  salário de dólares, etc.  Finalmente,  chegou o chefe novo, um alemão, casado com uma mexicana, e que havia trabalhado no México durante vinte anos. Era nele que Capelesso  depositava todas as suas esperanças que agora, finalmente, o custo de comestíveis iria baixar para 28%.  Só que, no primeiro mês do novo chefe o custo fechou com 46%, no segundo com 48%, e só não fechou acima de 50% no terceiro mês porque nos últimos dias do mês o italiano “engavetou” todas as requisicoes ao almoxarifado, para apenas lançar-as no começo do mês seguinte.  A coisa estava feia, mas iria ficar mais feia ainda.  Certo dia, o Chefe não apareceu para trabalhar.  Não era a folga dele, e ele não telefonou para justificar sua ausência.  No fim da tarde o Capelesso me chamou e disse, “Vamos ate o apartamento do Chefe em Copacabana.  Pegue o endereço dele  no departamento de pessoal.  Era um endereço na rua Barata Ribeiro, num daqueles prédios que tem dezenas de apartamentos por andar.  Fomos ate la, subimos ate o andar e tocamos a campainha, e nada.  Nenhuma resposta.  Descemos ate a portaria e perguntamos ao porteiro, “Nos estamos procurando o Hans, do apartamento 412, você tem visto ele”, “Hoje, nao”, respondeu o porteiro, “mas ontem a noite vi ele saindo com a mulher e uma monte de malas, acho que ele foi viajar, mas ele não disse para onde ia”.  Olhei para o Capelesso, mas este já estava inconsolavel, sentou na escada, e com as mãos no rosto, e entre soluços,  repetia sem parar, “filho da puta, filho da puta, filho da puta”  “O que foi”, perguntei, tentando acalma-lo, “pode ser que ele volte”, falei, sem muita convicção.  “Nao vai voltar nao” me respondeu o italiano, “na semana passada ele me pediu cinco mil dólares emprestados.  Disse que era para comprar um carro”  “E você emprestou o dinheiro?”, perguntei,   “Emprestei sim,....... filho da puta, filho da puta, filho da puta...”.  Bem, o chefe sumiu mesmo.  Soubemos depois que ele havia voltado para México, e nunca mais  deu noticias.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Um Piloto Corajoso

        Foi enquanto eu estava em São Paulo que ocorreu a primeira corrida de Formula Um no Brasil, em Interlagos.  A corrida era “experimental”, e não contava pontos para o campeonato daquele ano, mas caso fosse bem sucedida, a corrida do ano seguinte seria “official” e o Grande Premio Brasil entraria no calendário da Formula Um.  Os pilotos e chefes de equipe ficaram quase todos hospedados no Othon Palace, e vivemos uma semana de intensa movimentação.  No final tudo deu certo, e Brasil entrou definitivamente no calendário da Formula Um, e a única decepção, para os torcedores,  era que a corrida foi vencida pelo argentino Carlos Reutmann, e não por Emerson Fittipaldi ou José Carlos Pace.  De qualquer forma, nos do Othon Palace não poderíamos reclamar.  Carlos Reutmann estava hospedado no hotel e a noite, depois da corrida, a equipe “fechou” o Chalet Suisse – um dos restaurantes do hotel -  para comemorar a vitoria.  Mais marcante para mim, entretanto, foi uma corrida de Formula 2, realizado em Interlagos no final de 1972.  Novamente, muitos dos pilotos estrangeiros se hospedaram no Othon Palace, entre eles o piloto inglês David Purley, com quem passei a ter um contacto estreito, que iniciou-se de uma forma tensa.  Ocorreu que um dos patrocinadores da corrida organizou um “cocktail” no hotel com a presença dos pilotos e uns 300 convidados.  Neste cocktail, vendo que a maioria dos convidados estavam vestindo roupa esporte, o David Purley tirou o paletó que vestia e colocou-o pendurado numa cadeira num canto da sala.  No final do evento o piloto ao vestir novamente o paletó percebeu que a carteira dele que ele havia deixado no bolso do paletó havia sumida.  Como muitas vezes ocorre em circunstancias similares a primeira reacao do piloto foi responsabilizar o hotel pelo sumiço da carteira, chegando a afirmar que devia ter sido algum funcionário do hotel que havia furtado a carteira,  e exigir uma indenizacao.  Explique a ele que não havia como responsabilizar o hotel pelo sumiço da carteira, e muito menos acusar funcionários nossos, e embora lamentava a ocorrência a perda se devia mais a própria imprudência do piloto do que uma falha de segurança do hotel.  Inicialmente, o piloto relutou em aceitar meus argumentos chegando a fazer ameacas de contar o caso para a imprensa caso não fosse recompensado.  No dia seguinte, entretanto, já mais calmo, ele me procurou novamente e se desculpou pela sua atitude  da véspera, e concordou que a sua imprudência foi a principal causa do sumiço da carteira.  Chegou a afirmar que o mesmo fato teria ocorrido em qualquer parte do mundo, inclusive em Londres, e confessou que quando pendurou o paletó na cadeira havia esquecido que sua carteira estava no bolso do paletó.  A partir dai, passamos a falar de assuntos mais amenos, e fomos tomar algumas cervejas no Bar do hotel.  Ele me disse que tinha esperanças de estrear na Formula  1 já no ano seguinte, o que acabou acontecendo.   Mas o que chamou a atenção do mundo para David Purley foi o que sucedeu no GP de Holanda daquele ano, quando ele, sozinho, tentou, inutilmente,  salvar a vida do seu amigo Roger Williamson que estava preso num carro em chamas.  A cena,  pode ser visto no www.youtube.com/watch?v=mknBLPZukjI   .  Eu, que assistia a corrida ao vivo pela televisão no Rio de Janeiro fiquei chocado com a cena, e vê que a corrida nem foi interrompida!   Mais tarde, o David Purley recebeu das mãos da Rainha o “George Cross” a condecoração mais alta disponível para civis por atos de bravura.  Ele continuou na Formula por mais alguns anos mas depois abandonou a carreira para se tornar um piloto de aviões de acrobacia.  Morreu em 1985, num acidente trágico, quando seu avião caiu no mar na costa da Inglaterra.  Seu corpo jamais foi recuperado.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Noite Paulista

        As visitas do Cortez a Sao Paulo eram sempre um acontecimento.  O estilo gerencial que ele adotava contrastava vividamente com o estilo austero e conservador que era a cultura reinante ate entao dentro do grupo Othon, mas como Cortez representava a modernidade, e como ele tinha sido incumbido de “modernizar” o grupo Othon para enfrentar a concorrencia das multinacionais que chegava no Brasil, tudo para ele era permitido.  Geralmente, ele mandava seu automovel Mercedes-Benz do Rio de Janeiro de caminhao para ficar a sua disposicao em Sao Paulo, embora ele normalmente nao permanecia mais que tre dias na cidade.  O carro costumava ficar o dia todo na porta do hotel a sua disposicao, mas Cortez somente o utilizava a noite, pois era um assidio frequentador da “noite” paulista,  ou mais precisamente,  a famosissima e luxuosa boite  “La Licorne”,  muito conhecida na epoca.  Normalmente, a noite do Cortez comecava as 18 horas, quando, quase ele descia do seu escritorio no segundo andar do hotel para o Bar do hotel, sempre acompanhado pelo gerente geral e mais dois ou tres assesores  para beber Cutty Sark, o seu whisky preferido.  Nessas ocasioes ele gostava de contar historias sobre suas experiencias em hotelaria, ou entao tecer comentarios sobre a empresa e as dificuldades que ele enfrentava no Escritorio Central na sua tentativa de modernizar a administracao do grupo.   Eram historias fascinantes, contados com muito humor, e  Cortez era um bom contador de historias.   Inicialmente, eu nao fazia parte desse grupo “seleto”  que bebia com Cortez no Bar do hotel, mas depois de algum tempo passei a ser convidado por Cortez a me integrar a esse grupo , o que representava  uma clara sinal deprestigio -e , as vezes, ainda era convidado a jantar com o grupo, o que significava maior prestigio ainda.   O sinal de maior prestigio de todos entretanto ocorreu certa noite quando estavamos bebendo no Bar e Cortez virou para mim e disse  “Esta noite vamos todos ao La Licorne, passa no caixa de recepcao e retire dinheiro suficiente para pagar a conta da boite.  Voce sera o responsavel pelo pagamento da conta  e amanha voce presta conta da despesa”  E assim, fomos todos ao “La Licorne”, uma casa de grande luxo que havia se tornado quase um ponto de visitacao obrigatoria para qualquer visitante masculino, brasileiro ou estrangeiro, que se encontrava na cidade.  Era mesmo um lugar deslumbrante, e as “senhoritas”  que a frquentavam, eram mais deslumbrantes ainda, todas vestidas com modelos longos, trazidos de Paris, e muito elegantes.  As mocas ficavam circulando no salao, e nao era permitido  abordar os frequentadores.  Somente  se fossem convidadas poderiam sentar nas mesas para conversar e tomar um drinque.  Parecia um a mistura de desfile de moda com um desfile de beleza, tudo acompanhado por musica ao vivo e um servico impecavel, realmente inesquecivel.   Embora as “mocas” estivessem disponiveis para “servicos extras”, muitos frequentadores limitavam-se a apreciar a beleza do local, ouvir musica boa e apenas conversar com alguma moca, enquanto bebiam.  Foi o que se sucedeu com nosso grupo nesta noite e no fim da noite, conforme combinado, paguei as despesas do grupo, tendo o cuidado de solicitar a nota fiscal. No dia dia seguinte preparei o comprovante de caixa, com a nota fiscal anexa, para Cortez aprovar.  Quando levei o comprovante para ele assinar ele olhou, e perguntou “O que e isso?” “E o comprovante da despesa de ontem, no “La Licorne””, eu respondi, “mas aqui no comprovante nao esta escrito “La Licorne”” ele argumentou, “E por que o nome da razao social da empresa nao e essa. “La Licorne” e apenas o nome comercial da casa, e nao consta na nota fiscal”, respondi.  Ai, o Cortez rasgou o comprovante em pedacos, e me disse “ Entao refaca o comprovante, e depois da razao social, coloca entre parentesis “La Licorne”.  Quando isso bater na contabilidade no Rio de Janeiro, quero que todos saibam onde e que eu estive”  Era um claro afronto aos padroes conservadores da companhia na epoca, mas Cortez representava o novo poder, e gostava de exibir-lo.

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

O Principio de Unidade de Comando

        Uns dois meses depois eu ter chegado em Sao Paulo me encontravam no meu escritorio pela manha quando minha secretaria me informou que havia um Sr. Alcantara no telefone querendo falar comigo, mas que ele nao queria revelar qual era o assunto, embora fosse urgente.  Atendi o telefonema, pensesando que pudesse ser alguem do grupo Alcantra Machado, responsavel na epoca pelo centro de convencoes do Parque do Anhembi, mas  logo descobri  que o Sr. Alcantara era um garcon que trabalhava no VIP`s Bar, o movimentado Bar do hotel.   O garcon entao relatou que o Maitre do Bar, um veterano italiano muito simpatico, mas tambem muito “mafioso”, vinha cometendo um serie de arbitrariedades e abusos, exigindo propinas diarias dos garcons, e inclusive furtando garrafas de bebidas que eram entao vendidos com descontos para os clientes regulares do Bar.  Disse ainda que, na vespera, havia sido servido um “welcome drink” para um grupo que chegava no hotel, e que havia sobrado tres garrafas de rum, que, em vez de retornar ao estoque do Bar, haviam sidos escondidos debaixo da cesta de roupas sujas para depois serem vendidos diretamente aos clientes.  “Se fizer uma vistoria na cesta de roupa suja, o Senhor vai comprovar o que eu estou dizendo”, disse o garcon, e desligou.  Eram 9.30hrs da manha, e o Bar so abria as 11 horas, mas o pessoal entrava em servico as 10.30hrs.  Procurei o gerente-geral, mas ele estava reunido com Cortez, e nao podia ser interrompido.  Chamei entao o gerente de alimentos e bebidas, um alemao com pouco tempo de Brasil, e relatei o que o garcon havia me contado.  Combinamos entao que o gerente de A&B faria uma vistoria rotineira no Bar, prestando especial atencao a cesta de roupa suja, e quando isto foi feito acabou revelando a existencia das tres garrafas de rum.  As garrafas foram recolhidas ao escritorio do gerente de A&B, que entao aguardou a chegada do Maitre do Bar, para pedir explicacoes.  Assim que chegou ao Hotel o Maitre foi chamado ao escritorio do gerente, mas quando comecou a ser questionado sobre o ocorrido reagiu, e disse “Ja que voces estao desconfiando de mim, eu peco as minhas contas.  Nao admito que alguem desconfia de mim, e nao trabalharei mais nesta casa”, e com isso pediu licenca, saiu do escritorio do gerente, passou no departamento de pessoal, assinou uma carta pedindo demissao, e foi para casa.  Assim, que a reuniao do gerente-geral terminou, fui ate o seu escritorio e relatou o que havia ocorrido.  “OK”, ele me disse, “mas reforca o servico no Bar para esta noite.  O Cortez e um frequentador assiduo la, ele vai perceber a falta do Maitre, e eu nao quero nenhum problema com o servico”  Colocamos entao um maitre substituto no lugar do italiano, reforcamos o servico com mais quatro garcons, e tudo parecia correr bem.  Aos 18 horas, como de habito, o Cortez apareceu no Bar, ficou la por duas horas e depois foi jantar com o gerente-geral.  Depois do jantar o gerente-geral me chamou e disse “Convoca todos os garcons e barmen do VIP`s Bar para uma reuniao no meu escritorio, amanha as 11 horas.  E convoque o gerente de A+B e o gerente de Recursos Humanos tambem”  Na hora marcada todos estavam la.  Haviam ao todo 12 garcons e barmen, e a sala do gerente-geral estava cheio.  “Quem de voces confirmem as alegacoes que o Maitre vinha furtando garrafas de bebidas e praticando outras irregularidades?” perguntou o gerente geral.  Todos confirmavam, dando diversos exemplos, e ainda relatavam outors  abusos que o italiano habitualmente praticava.  Todos, menos um, um barman de descendencia japonesa , que recusava a confirmar o que todos os outros diziam, e se limitava a balancar a cabeca negando que tivesse conhecimento de qualquer irregularidade.  Quanto mais o gerente-geral o pressionava para confessar o que todos os outros diziam, mais o japones apenas balancava negativamente a cabeca.  Nao sabia de nada, nao tinha visto nada, nunca tinha tomado conhecimento de qualquer irregularidade, e desconhecia qualquer abuso praticado pelo Maitre.  Parecia que o japones so podia ser comparsa do italiano, e quando todos pensaram que ele seria demitido, o gerente-geral virou para o gerente de Recursos Humanos, e decretou “Todos esses onze que denunciaram o Maitre estao demitidos, com efeito imediato.  O japones, deve voltar ao servico. Mande um carro na casa do Maitre, e traga-o de volta ao trabalho.  Avise-o que sua carta de demissao nao foi aceita. A reuniao esta terminado, podem sair”, e assim foi feito.  Fiquei estupefato.  Virei para o gerente-geral depois que todos haviam saido, e disse “Como e possivel fazer isso.  Esta muito evidente  que o Maitre esta furtando, e cometendo um serie de abusos.  Como podemos ser conivente com isso?  Que exemplo estamos dando para os demais funcionarios?” “Sei, que voce nao entendeu nada, mas a ordem de demitir todo mundo foi do Cortez, e tem que ser obedecido”, me respondeu o gerente geral.   No fim de tarde, Cortez me chamou ao seu escritorio, junto com o gerente de A&B.  “Sei que voces nao concordaram com minha decisao.  Mas nao aceito, de maneira alguma, que um superior hierarquico, nao importa em qual nivel hierarquico esteja, possa ser derrubado por uma denuncia oriundo de um subordinado.  A hierarquia tem que ser mantida acima de qualquer outra consideracao.  E um principio de qual nao abro a mao em quaisquer circumstancias. Se nossos controles internos haviam apontado as discrepancias no estoque no Bar, eu nao diria nada, alias, eu estaria a favor da demissao do Maitre, mas, atraves da denuncia de um subordinado, nunca.  Agora, que voces ja sabem que o Maitre nao e confiavel, devem reforcar os controles internos no Bar, e efetuam mais “spot checks” inesperados.  Na hora que voces reunem evidencias claras de irregularidades, podem demitir o Maitre, mas nao antes”, e assim encerrou a reuniao.  Levamos seis meses para conseguir juntar estas provas, mas finalmente conseguimos, e o Maitre  foi, finalmente, demitido.



quarta-feira, 1 de junho de 2011

Chegando em Sao Paulo

        Chegando em São Paulo, era como eu estivesse entrando num outro mundo.  As diferenças entre o Castro Alves e o Othon Palace eram enormes.  Enquanto o  Castro Alves era um modesto hotel de três estrelas, e cuja clientela era predominantemente composta de turistas brasileiras e sul-americanas, o Othon Palace era um imponente cinco estrelas  e, em 1972,  ainda era indiscutivelmente um dos melhores hotéis de São Paulo.  A localização no centro de São Paulo, na Praça Patriarca, era considerada  boa, pois o centro financeiro da cidade ainda ficavam nas proximidades.  A clientela era formada por executivos e homens de negócios, e o hotel ficava quase sempre lotado nos  dias de semana, mas a taxa de ocupação caia para 40-50% nos finais de semana.   Fora isso, haviam dois restaurantes movimentados, e um Bar que faturava mais por dia do que o Bar do Castro Alves em três meses. Alem disso, o hotel tinha mais que 300 funcionários, todos organizados por departamento, e uma estrutura organizacional completamente diferente do que existia no Rio, mesmo quando comparado ao do Leme Palace.    A minha função, de sub-gerente executivo, era similar  hoje  a função de Gerente Residente.   Basicamente, eu era responsável pela coordenação das áreas operacionais do hotel, principalmente das áreas de recepção, governanca, e manutenção.  O gerente de alimentos e bebidas, embora subordinado ao sub-gerente executivos no organograma, reportava-se diretamente ao gerente geral.   Tinha um bonito e amplo escritório,  que comportava uma mesa de reuniões para oito pessoas, e  uma janela que dava  vista para o Viaduto do Chá, e, pela primeira vez na vida, uma secretaria particular.  Aos poucos fui me adaptando a este novo mundo, e não demorou muito para eu perceber que eu tinha algumas vantagens.  Para começar, ninguém no hotel  conhecia mais  todos os processos e rotinas internas de Hotéis Othon do que eu.  Como eu havia estagiado no Leme Palace, e no Escritório Central, a ainda passado quase três anos no Hotel Castro Alves, onde todos as rotinas burocráticas era de responsabilidade do gerente, eu não sabia apenas interpretar os diversos relatórios gerenciais, mas sabia confecionar-los também.  Eu também entendia muito da CLT, e toda a burocracia trabalhista ligada a movimentação de pessoal e a confecção da folha de pagamento.   Como o Othon Palace era um hotel grande, muito departamentalizado, as pessoas só conheciam as rotinas do seu próprio departamento, enquanto eu, que vinha de um hotel pequeno, conhecia todas. Uma outra vantagem que eu tinha e que enquanto o pessoal de São Paulo não tinha muita intimidade com os temidos burocratas do Escritório Central no Rio, eu não apenas conhecia as pessoas,  mas  me dava bem com todos, e isto facilitavam muitos os entendimentos quando havia algum questionamento.  Com estas vantagens, fui logo conquistando a confiança dos demais gerentes e chefes de departamentos, e não  tive dificuldade de ser aceito como chefe, mesmo tendo apenas 26 anos de idade e tendo que lidar com profissionais muito mais experientes que eu.    Outro fato que me ajudou muito foi a capacidade de me comunicar bem na língua inglesa com o gerente geral, um suico recem chegado ao Brasil, que falava espanhol razoavelmente bem, mas não português.  Ele tinha trabalhado anteriormente na cadeia Intercontinental, na África, e no Oriente Médio, e o idioma inglês era sua língua preferida.  Eu tinha uma reunião formal com ele de uma hora, todas as manhas, junto com o gerente de alimentos e bebidas, quando ele fazia suas observacoes sobre a qualidade dos serviços e o movimento do hotel em geral.  O gerente de alimentos e bebidas era um jovem alemão, apenas três ou quatro anos mais velho que eu, mas com pouco tempo de Brasil, e  o gerente geral infernizava a vida dele.  Em parte, porque o gerente geral era também um “expert” na área de alimentos e bebidas, tendo já exercido a função de gerente de alimentos e bebidas em outros hotéis no exterior, e também, em parte, eu desconfio, porque o suico também não simpatizava muito com os alemães.  Também contribuía para o desgaste o fato que a esposa do gerente geral era uma senhora argentina, de temperamento difícil, que diariamente tinha queixas  sobre o Room Service, de qual era a cliente principal, já que morava no hotel.  As nossas reuniões então invariavelmente começavam com um serie de criticas dirigidas ao gerente de alimentos e bebidas em função da falta de qualidade dos alimentos servidos, ou da morosidade no atendimento do pessoal de Room Service.  Por mais que o gerente de alimentos e bebidas se esforçasse para contornar os problemas, nada satisfazia a exigente argentina, nem o irado suico.  Eu tentava amenizar um pouco a situação, pois sabia que as reclamacoes eram muitas vezes injustas, mas não havia muito que eu pudesse fazer.

         Fora estas reuniões diários, havia também toda semana a reunião dos Chefes de Departamento, reunindo em torno de vinte pessoas, sempre conduzido pelo gerente geral.  Eram reuniões formais, e da maior importância, onde se discutia todos os assuntos importantes e decidia providências a serem tomadas.  O follow-up e cobrança implacável aos gerentes dos assuntos pendentes de reuniões anteriores eram a marca registrada dessas reuniões.  De qualquer forma, para mim, ter a oportunidade de  observar de perto a atuacao de um gerente geral com experiência internacional numa cadeia de grande prestigio foi de um valor inestimável.  Era impressionante como ele analisava os resultados do hotel, e como ele cobrava resultados dos demais gerentes.  Ele se preocupava muito com a qualidade dos serviços prestados e passava sempre um bom tempo analisando os questionarios preenchidos pelos hospedes, e procurando sempre formas de aprimorar os serviços.  Mesmo assim, ficou logo evidente, que o poder real dentro do hotel ainda era exercido por Cortez. O fato que o Cortez havia passado quase dois anos no hotel como gerente geral, e feito tanto a reforma administrativa como a reforma fisica das instalacoes, fazia que ele, mesmo exercendo o cargo de Superintendente de Operacoes no Rio de Janeiro, nao se desligava da rotina diaria do hotel.   Diariamente, o gerente geral tinha que telefonar para Cortez no Rio para comentar as coisas mais importantes que havia ocorrido, como estava o movimento, etc., e há cada 15 dias o Cortez visitava o hotel, normalmente ficando três dias em cada visita.  Para isso, ele mantinha ate um escritório montado para seu uso exclusivo, enquanto estava na cidade.  Durante estas visitas ele costumava passar horas reunidos com o gerente-geral, que por sua vez ficava incomunicável, pois as reuniões com Cortez não podiam ser interrompidos, sob hipótese alguma. Foi justamente numa dessas ocasiões que ocorreu um caso inusitado, que passarei a contar no capitulo seguinte. 

terça-feira, 17 de maio de 2011

Trocando Cornell University por São Paulo

        Uma das vantagens que eu desfrutava como gerente do Hotel Castro Alves foi a participacao nos diversos cursos de treinamento que o grupo Othon promovia permanentemente, para seus administradores.  Os cursos eram dirigidos principalmente para a area de administracao, como um todo, e tinham bastante proveito pratico para os problemas do dia a dia.  Outro curso de grande valia foi de "Chefia e Lideranca", materia muito importante para qualquer gerente.  Alvaro Bezerra de Mello,  o Diretor Executivo de Hoteis Othon, era o grande entusiasto e incentivador desses cursos.  No final de 1971, ele me chamou e disse, “No proximo ano, eu quero que voce faca o “summer school” em Cornell University.  Voce ficara la por sete semanas.  Vou providenciar a sua inscricao”  Isso era um premio  enorme por mim.  O curso de Cornell  era reconhecido como o maximo em materia de hotelaria, e era considerado um privelegio enorme poder estudar la.  Apos algumas semanas de espera angustiantes, finalmente chegou a confirmacao da minha inscricao no curso, e a partir dai comecei a contar os dias ate eu embarcar. Meu destino, entretanto, acabou sendo outro, pois antes de chegar a hora de partir para Cornell, minha carreira deu outra guinada, que em vez de me levar para o Cornell, acabou me levando para Sao Paulo.  Foi assim que aconteceu; No final de 1970, o Othon havia contratado um gerente novo para o Hotel Trocadero, Daniel Cortez, um cabo-verdiano de nacionalidade portuguesa, que havia feito uma carreira nas cadeias Sheraton e Intercontinental, tendo chegado ao cargo de gerente-geral de  grandes hoteis em ambas estas cadeia, embora ainda bastante joven.  Dizem, entretanto, que se meteu em alguma confusao nas Filipinas, e isto o obrigou a deixar o pais, e foi assim que ele chegou ao Brasil buscando novas oportunidades.  Foi um momento muito oportuno, pois coincidia com a tentativa de Hoteis Othon em modernizar sua administracao para fazer frente a iminente chegada no pais das cadeia internacionais.  O Cortez representava a modernidade, e o futuro.  Falava do “uniform system of accounts” - a biblia da contabilidade hoteleira internacional -com muita eloquencia, e mostrava como se devia organizar um demonstrativo de lucros e perdas, como se devia atribuir centros de custos para todos os departamentos do hotel, e, acima de tudo, demontrava como se podia tornar um hotel mais lucrativo. Era tambem um profundo conhecedor da area de alimentos e bebidas, e um eximio analista de operacoes, Se, “em terra de cego, quem tem olho e Rei”, o Cortez de tornou um verdadeiro Imperador.  Apos poucos meses gerenciando o Hotel Trocadero em Copacabana, foi enviado para Sao Paulo para assumir a gerencia-geral do Othon Palace Hotel, com carta branca para realizar todas as reformas, tanto fisicas como administrativas, para tornar o hotel competitivo com o Hilton.  Modificou completamente o organograma do hotel, implantando um modelo muito similar ao que ate hoje e usado na grande hotelaria, mas que na epoca era uma novidade completa.  Reformou todos os apartamentos do hotel, e todas as areas publicas, incluindo o restaurante e bar, um dos mais movimentados do centro de Sao Paulo, na epoca.  O trabalho foi tao bem sucedido que, depois de 18 meses, Cortez foi promovido ao cargo de Superintendente de Operacoes do grupo, responsavel por todos os hoteis da cadeia.  Contratou um suico, com experiencia na cadeia Intercontinental na Africa, para substituir-lo em Sao Paulo, e mudou-se para Rio de Janeiro para assumir o novo cargo.  Uma das caracteristicas mais marcantes da personalidade de Cortez era a vaidade.  Numa epoca em que carros importados no Brasil era quase uma exclusividade do corpo diplomatico, Cortez circulava pela cidade com seu automovel Mercedes-Benz, placa DC-1938 (Daniel Cortez, seguida pelo seu ano de nascimento).  Enquanto estava em Sao Paulo, havia trazido tres ou quatro assessores do exterior, e esses agora o acompanharam para Rio.  Cortez exigia absoluta lealdade a sua pessoa. Era quase maniaco em relacao a exigencia de haver respeito absoluto a hierarquia interna.  Nao admitia, de forma alguma, qualquer desvio a esse principio.  Trabalhar para Cortez, era quase como mudar de emprego.  Deixava de trabalhar para o Othon, e passava a trabalhar para Cortez.  Era assim que funcionava.  Nos primeiros meses no novo cargo o Cortez praticamente me ignorou, mas, certo dia, inesperadamente, apareceu num final de tarde no Castro Alves, acompanhado de um assessor.  Em vez de se dirigir ate meu escritorio, sentou-se na sala de estar do hotel, e mandou me chamar.  La chegando, mandou-me sentar e foi logo ao assunto, “Eu sei que voce esta inscrito no curso de verao do Cornell University”  “Sim, senhor, e uma grande oportunidade, e estou muito ansioso para o curso comecar”, “Eu tenho uma outra proposta para voce.  Como voce deve saber, ja fiz a completa reorganizacao e reforma do Othon Palace em Sao Paulo, que agora sera um modelo para o resto da companhia.  Contratei um experiente profissional suico para assumir a gerencia geral do hotel, mas falta-lhe experiencia no Brasil.  Estou lhe oferecendo a opportunidade de assumir a sub-gerencia executivo do Othon Palace, reportando-se diretamente ao gerente-geral”  E ai, Cortez fez uma pausa, olhou com desdem as modestas intalacoes do Castro Alves, e disse, “sera uma oportunidade para voce comecar a aprender a verdadeira administracao hoteleira”  “E quanto ao curso em Cornell?”, perguntei.  “Voce tera que cancelar sua participacao no curso”, veio a resposta, e depois de outra pausa, completou “mas eu garanto que com seis meses trabalhando na minha equipe, voce vai aprender muito mais do que se pasasse quatro anos em Cornell.  Bem, eu lhe dou 24 horas para pensar no assunto, e aguardo sua resposta ate amanha".  “Nao preciso de 24 horas” respondi na hora “Ja decidi, aceito a sua proposta”  Cortez me olhou fixamente por alguns segundos, e ja levantando, me disse “Muito bem”, voce se apresenta em Sao Paulo na proxima segunda-feira.  Minha secretaria vai lhe contactar para providenciar as passagens”.  "E quem vai ficar no meu lugar no Castro Alves?", perguntei, "Isso depois eu resolvo" me respondeu Cortez, como se fosse um assunto de menor importancia,  Era maio de 1972, e eu tinha acabado de completar 26 anos de idade.  Eu ainda nao sabia, mas neste momento eu tinha dado um passo decisivo,  que teria desdobramentos e consequencias para o resto da minha carreira!

sábado, 7 de maio de 2011

Antes do Começo

Antes do Comeco........                                                  





Nasci no ano de 1946 na cidade de Accrington, pequena cidade no condado de Lancashire, no norte da Inglaterra.  A regiao de Lancashire era o centro da industria textil na Inglaterra, que havia conhecido seu apogeu no final do seculo 19, para depois entrar num longo periodo de declinio, ate finalmente se extinguir por completo, mas em 1946, a industria ainda sobrevivia.   Foi a epoca pos-guerra, e Inglaterra, quase falida pela segunda guerra mundial, vivia um periodo de grande austeridade.  Os hospitais estavam cheios de soldados ainda se recuperando dos ferimentos da guerra, e consequentemente nasci na casa dos meus avos, com a minha mae sendo assistida no parto apenas por minha avo e a parteira da regiao, como era usual.  Ficaram todos surpresos entretanto ao constatarem que nao era apenas uma crianca que nascia, mas duas, pois eramos gemeos, eu, e minha irma!  Como tudo estava preparado para apenas uma crianca, o meu primeiro berco foi uma gaveta improvisada, o que pelo menos me permite afirmar, categoricamente, que “nao nasci num berco de ouro!” Sempre me condiderei uma pessoa de sorte, e a primeira sorte foi ter nascido dez minutos antes da minha irma, que me concedia durante nossa infancia uma certa ascendencia em relacao a minha irma, pois , nas discussoes, a falta de uma melhor argumentacao era sempre resolvida com um “cala a boca, pois sou mais velho que voce!”  Nao sei como teria sido a minha vida se eu nao fosse assim!



Quando eu tinha quatro anos de idade, meus pais vieram  para Brasil, mais precisamente para Recife, onde meu pai foi contratado para trabalhar no grupo Othon Bezerra de Mello, que tinha interesses na area textil e acucareira.  Meu pai era contador de formacao, e sendo natural de Lancashire, tinha um grande conhecimento da area textil.  Naquele tempo, muitas empresas brasileiras contratavam profissionais na Inglaterra, em funcao de existir uma carencia de mao de obra qualificada no Brasil, e no grupo Othon havia dezenas deles.  O contarto do meu pai com o grupo era de tres anos, apos o qual ele pensava em regressar para Inglaterra.  Eramos para ter vindo ao Brasil de navio, mas duas semanas antes de viajar eu e minha irma contraimos sarampo, e a viagem teve que ser adiada.  Para compensar o atraso, resolveu-se que nao viajariamos mais de navio, e sim de aviao, e foi assim que finalmente embarcamos num constellation do Panair do Brasil para a viagem de Londres a Recife, com escalas em Paris, Lisboa, e Dacar.  Nunca vou esquecer o impacto que me causou a nossa chegada no aeroporto dos Guararapes em Recife.  Era meio-dia, no mes de dezembro, e o calor, e a claridade um total contraste com o frio e escuridao de Accrington!  Ficamos hospedados por alguns dias no “Pensao dos Ingleses” no centro de Recife, e depois mudamos para uma casa proxima a praia no bairro de Boa Viagem, um local considerado distante do Centro, e onde so havia casas, algumas das quais residenciais, mas a maioria de veraneio.  Meu Pai, vestindo ternos de linho branco, como era o costume,  saia para trabalhar cedo, pois o trabalho se desenvolvia em dois turnos, o primeiro das 7 as 11hrs, e o segundo das 14 as 18hrs.  Com isso, meu Pai almocava todo dia em casa, e nos iamos ao ponto do onibus aguardar sua chegada, sempre no mesmo horario pois nao havia engarrafamentos.  Desse tempo tenho muitas recordacoes da praia de Boa Viagem, para onde iamos todos os dias.  Nao havia tubaroes com os quais se preocupar, mas havia muitas aguas-vivas, principalmente as temidas caravelas portuguesas, para as quais tinhamos que estar sempre atentos.  Nos fins de semana, frequentavamos o “British Country Club”, vizinho do Clube Nautico Capibaribe na Avenida Rosa e Silva.  Tratatava-se de um tipico clube ingles da era colonial, onde as senhoras sentavam na varanda tomando cha, enquanto os homens jogava cricket , ou tenis, ou entao sinuca, e a noite todos tomavam seus “gin and tonics” no amplo bar.  Enquanto isso, nos criancas brincavamos soltos nos amplos jardins, longe dos adultos.  Na pereferia do clube estava situada a igreja anglicana, que tambem funcionava como uma escola primaria.  E que naquele tempo, havia aproximadamente 700 familias britanicas morando e trabalhando em Recife, e todos frequentava o clube.

Seis meses depois de termos nos instalado em Boa Viagem, meu Pai chegou em casa um dia com a noticia que iriamos mudar para o interior de Pernambuco, pois ele havia sido promovido ao cargo de Chefe de Escritorio de uma usina de acucar pertencente ao grupo em Rio Una, um pequeno vilarejo proximo a Barreiros,  perto da fronteira com Alagoas e foi la que acabamos passando os proximos dois anos, sendo que, uma vez por mes, passavamos um final de semana em Recife, sempre hospedados no “Pensao dos Ingleses”, e sempre frequentando o “British Country Club”.   A viagem de carro, ou de jipe, entre Recife e Rio Una era sempre uma grande aventura e levava umas quatro horas em estradas de terra batida.  Os carros e caminoes que passavam levantavam nuvens de poeira, e era preciso cobrir o nariz e a boca com lencos para proteger da poeira.  Na epoca de chuva, a estrada ficava simplesmente intransponivel, e passavamos tres ou quatro meses sem conseguir visitar Recife.

A vida em Rio Una era muito pacata comparada com Recife, mas mesmo assim tinha um ritmo proprio toda especial. O vilarejo nao tinha mais que quinhentos moradores, e o local era dominado pelo imponente presenca da  usina de acucar. Fora a usina, havia o escritorio central, onde meu pai trabalhava; um posto medico; uma unica rua de terra batida, com casas pequenas de um lado e casas um pouco maiores do outro lado; uma quitanda; um acougue, e subindo um pequeno morro, a “casa grande”, e a igreja – na verdade uma pequena capela.  Quando chegamos, moramos inicialmente na “casa grande”, cercado de mordomias de todos os lados, mas depois foi construida uma casa nova proxima a “casa grande” onde finalmente fomos morar.  Eu e minha irma logo ganhamos um cavalo de presente, e todas as tardes saimos para passear nas redondezas, pois as manhas eram ocupados com aulas de alfabetizacao, administradas por nossa mae, com o auxilio de um curso por correspondencia vindo da Inglaterra.  Tambem visitavamos frequentemente as lindas praias de Tamandare, e Sao Jose da Coroa Grande,  - praias absolutamente desertas na epoca – e que hoje sao reconhecidas entre as mais belas praias do nordeste.  Havia muita atividade em torno da igreja, que realizava procissoes em todos os dias santos e que a noite se transformava em festas na praca central, mas o evento mais aguardado era a chegada do cinema intinerante, que ha cada dois meses montava um barracao de lona na praca central, e cada morador levava sua propria cadeira para sentar e assistir o espectaculo.

Em pouco tempo de convivencia, eu e minha irma ficamos bem enturmados com a garotada local, e  tinhamos uma vida muito livre e solta, andando por todos os lugares.  Me lembro certo dia que alguem no vilarejo havia morrido e ia ser enterrado em Barreiros, a cidade proxima, pois nao havia cemeterio em Rio Una.  Nao pensamos duas vezes, e subimos no caminhao que transportava tanto o caixao como os familiares e amigos do defunto, e fomos acompanhar o enterro em Barreiros.  Me lembro chegando tarde em casa e nossa mae perguntando “Onde e que voces andavam?”, e respondemos, com toda naturalidade “ah, tivemos acompanhando um enterro em Barreiros”.  Outro truque que aprendi com os garotos locais era de pular nos vagoes dos trens que traziam a cana para ser moida na usina.  Aguardavamos num barranco nas proximidades de uma curva, que obrigava o trem a andar mais devagar, e quando o tren passava pulavamos  em cima da monte de cana de acucar e jogavamos a cana para fora para depois mastigar.   Era uma brincadeira perigosa, pois qualquer escorregao seria fatal, mas nao pensavamos no perigo.

Foi neste periodo que fui assistir meu primeiro jogo oficial de futebol.  O time local de Barreiros estava disputando um campeonato regional, com chances de sagrar-se campeao caso vencesse o ultimo jogo, que seria jogado no campo de Barreiros, um estadio acanhado com instalacoes precarias.  A expectativa na cidade em torno do jogo era enorme e meu pai resolveu me levar para assistir ao jogo.  No inicio tudo trancorria bem, pois o primeiro tempo termonou com Barreiros vencendo o jogo por 1 x 0.  Em meados do segundo tempo, entretanto,o juiz marcou um penalty contra Barreiros, e iniciou-se uma grande pancadaria no campo que logo tomou conta de todo o estadio.  Foram dados muitos tiros para o alto, e foi uma correria louca para escapar da confusao.  Me lembro chegando  em casa e meu pai jurando nunca mais comparecer num jogo de futebol no Brasil.  Jura, alias, que nao cumpriu, pois me lembro anos mais tarde ele me levando para assistir Botafogo x Canto do Rio no General Severiano, e Santos x Benfica, no Maracana, pelo campeonato Mundial de Clubes - mas isso ja e outra historia!

Em meados de 1953, ja havia passado dois anos e meio do contrato do meu Pai  com o Othon, e eu e minha irma ja estavamos com sete anos de idade, e precisando comecar o colegio.  Como Othon havia solicitado ao meu pai para permanecer por mais seis meses no Brasil, meus pais resolverem que seria melhor eu e minha irma voltar logo para Inglaterra para poder comecar as aulas no inicio do ano letivo ingles no mes de agosto, e ficariamos morando na casa dos nossos avos em Accrington, entao mudamos mais uma vez de continente, e trocamos o sol e calor do nordeste brasileiro pelo frio e cinzento Inglaterra, e foi assim que minha nossa mae nos levou de volta para Inglaterra, enquanto meu pai continuava trabalhando no Brasil.  A volta de Recife para Inglaterra foi feita no navio Alcantara, pertencente a Royal Mail Lines, e foi simplesmente espectacular, pois a gente passava o dia inteiro brincando com as muitas outras crianca a bordo.  Um dia, foi permitido aos passageiros visitar a ponte do comando, e o Capitao permitiu que eu ficasse alguns minutos segurando o “wheel”, como se estivesse de verdade “dirigindo” o navio.  Corri para contar a novidade para minha mae, e ela respondeu “bem que eu senti o navio fazendo uns zigue-zaques!”.  Me lembro bem a passagem pela baia de Biscaia, quando pegamos uma tempestade enorme que fazia o navio balancar muito.  Tinha sido proibido utilizar a piscina pois a agua da piscina corria de um lado para o outro com o balancar do navio.  Mesmo assim,jogamos os botes salva-vidas dentro da piscina e ficamos em cima deles sendo jogados de um lado para o outro, ate um tripulante descobrir e mandar todo mundo sair immediatamente.

Chegando na Inglaterra, fomos morar na casa dos meus avos em Accrington.  Minha mae ficou conosco algumas semanas ate comecar as aulas e ai voltou para Brasil.  Passamos entao quase um ano morando com nossos avos, que eram pessoas simples, mas muito boas, ate nossos pais retornar e ai fomos morar com eles numa outra casa, tambem em Accrington.  Nesta altura, eu  ja havia me tornado torcedor do Accrington Stanley, o time de futebol local, que disputava a terceira divisao ingles, e assistia quase todos os jogos quando o time jogava em casa.  Quando eu tinha  onze anos de idade, meu pai mudou de emprego e fomos morar em outra cidade, Ilkley, uma cidade pequena mas muito bonito perto de Leeds, onde meu pai trabalhava.  Logo depois disso passei a frequentar um colegio interno so para meninos, o Hutton Grammar School, onde passei os proximos tres anos.  O colegio interno era uma dureza, com uma rigida disciplina, que mais parecia um quartel do exercito, mas aos poucos fui me adaptando.  Felizmente, sempre fui bom nos esportes, e isso era uma qualidade fundamental para se entrosar bem com os outros e fazer amizades.  Mesmo assim, sentia muitas saudades de casa, principalmente porque nesta epoca minha mae ficou doente e teve que ser internada num hospital, e nao era permitido que eu fosse visitar-la.  Varias vezes pensei em fugir do colegio, mas nao era facil driblar os professores e monitores que ficavam de olho o tempo todo!  Finalmente, acabei me adaptando, e gracas a habilidade de fazer amizades, acabei ate gostando do colegio.  Nas ferias de pascoa de 1960, meus pais vieram com uma grande novidade.  Meu pai tinha aceito um convite para voltar a trabalhar no grupo Othon, desta vez no Rio de Janeiro, e iria assumir o novo posto dentro de seis meses.  “Voce quer continuar estudando em Hutton, e passar as ferias na casa dos seus avos, o quer vir conosco para Rio de Janeiro , onde voce pode estudar no “British School of Teresopolis”, um internato misto?”, perguntou meu pai, me mostrando um folheto do colegio de Teresopolis.  O folheto mais parecia um propaganda para uma colonia de ferias, com mocas e rapazes brincando na piscina, andando de cavalo, e jogando voleibol.  So a ideia de estudar num colegio interno misto ja me agradava, e nao tive duvida em responder “Eu vou para o Brasil!”

E foi assim, que em outubro de 1960, e mais uma vez de navio, fizemos a travessia do oceano Atlantico, ate Rio de Janeiro.  Chegando no Rio, ficamos hospedados no Hotel Aeroporto no centro da cidade, mas logo fomos morar num apartamento alugado no Leme.  Nosso apartamento dava frente para Av. Gustavo Sampaio, mas o predio tinha duas frentes, uma dando para Gustavo Sampaio e a outra para Av. Atlantica.  A ma noticia que recebemos ao chegar no Rio era que o “British School of Teresopolis” nao desfrutava de uma boa reputacao, e, seguindo o conselho do padre da igreja anglicana, meus pais resolverem nao nos matricular la.  Em 1960, o British School de Botafogo, que nada tinha a ver com o colegio de Teresopolis, so tinha alunos ate completarem 14 anos, apos o qual os alunos iam estudar na Inglaterra.  Como nao falavamos portugues, o jeito foi de ir estudar na Escola Americana, localizada ainda na Rua General Urquiza no Leblon, onde acabei estudando do nono ate o decimo-primeiro ano.  De todas as adaptacoes que tive que fazer ao longo da vida, talvez a mais dificil foi a adaptacao de um colegio internato ingles, so para meninos, para a Escola Americana do Rio de Janeiro.  Alem do sistema de ensino ser completamente diferente, toda a cultura da escola era diferente.  Eram dois mundos totalmente distintos!  De qualquer forma, acabei me adaptando, ajudado mais uma vez pela pratica de esportes, pois fiz parte do primeiro time oficial de futebol de salao montado pela escola, e tambem fazia parte da equipe de atletismo.  Em 1962 mudamos de Leme para Leblon, que ainda era um bairro super-tranquilo.  A Avenida Ataulfo de Paiva ainda era de paralelepepios e os bondes andavam nas duas direcoes.  Frequentava muito a praia e jogava futebol com os amigos na Praca Antero de Quental.  Nada mal!  Nesta epoca, influenciado cetamente pelas viagens de navio que havia feito, eu tinha um verdadeiro loucura pela marinha mercante, e queria de qualquer maneira seguir uma carreira naval.  Quando meus pais me convencerem que a era de transporte de passageiros maritimos estava no fim, passei a fixar meus objetivos na Marinha Real inglesa, e por pouco nao voltei a Inglaterra para frequentar e escola naval de la.  De qualquer forma, meus pais queriam que obtivesse o diploma do curso secundario na Inglaterra, e assim, em 1963, com 17 anos de idade, retornei para a mesma escola interna na Inglaterra que eu havia frequentado das 11 aos 14 anos.  Se adaptar de um colegio interno ingles para a Escola Americana do Rio de Janeiro ja havia sido dificil, imagine o que foi fazer o caminho inverso tres anos depois!  Entretanto, apesar de tudo, acabou sendo uma experiencia positiva.  Para comecar, encontrei com varios antigos amigos, e logo percebi que a minha ausencia de tres anos no Brasil havia feito crescer um certo aura de admiracao em torno da minha pessoa.  Eu ja tinha sido popular antes, mas ao retornar, mais velho, todos me tratava com muita deferencia!  Para completar, com a passagem pela Escola Americana, eu havia adquirido um leve sotaque americano, e como em Lancashire isso nao era comun, tambem somava, principalmente com as garotas locais, com as quais a gente se encontrava.  Era a epoca dos Beatles e dos Rolling Stones, que gerou uma epoca de muita rebeldia em relacao as tradicoes e autoridades constituidas, inclusive do colegio.  Apesar de ter sido nomeado “Monitor” ao chegar no colegio, e portanto ter a obrigacao de zelar pela manutencao da disciplina, mergulhei de cabeca nesse clima de rebeldia e logo me tornei um especie de lider de um movimento de contestacao, que questionava o regulamento interno e disciplina vigente.  Junto com mais meia duzia de alunos, aprontavamos barbaridades, e infernizavamos a vida dos professores e diretor do colegio, mas, aos poucos, fomos ganhando concessoes que eram impensaveis poucos anos antes.  Apesar de eu nao ter jogado rugby por tres anos, em poucas semanas de retorno eu ja fazia parte do time principal da escola, e ganhei o direito de marcar a  lapela do blazer do uniforme escolar com os numerais romanos XV, indicando que fazia parte dos quinze jogadores do time principal.  Nada no colegio dava mais prestigioso entre os alunos do que isso.  Passado o inverno, a temporada de rugby terminou e comecou do cricket.  Tambem, em pouco tempo, eu estava no time principal, e ai ganhei  o direito de decorar a outra lapela do blazer com os numerais XI, que denotava que fazia parte do time principal de cricket.  O aluno que ostentava o XV numa lapela, e o XI na outra, so faltava ser carregado no colo – era o prestigio maximo.  Para completar meu prestigio desportivo, eu era o aluno mais veloz da escola, e fazia parte da equipe de atletismo da escola, e no torneio anual da escola conquistei a medalho de ouro nos 100, 200, e 400 metros rasos, sendo que neste ultimo, estabeleci um novo tempo recorde para a prova.  Foi de fato o apogeu da minha carreira esportiva.   Na medida que crescia meu prestigio entre os alunos, decrescia meu prestigio com os professores e o diretor.  Com excecao de um ou outro professor, que realmente motivaram os alunos, a maioria apenas se valiam da autoridade e da disciplina, e esses eu e minha turma combatiam, sem piedade.  Faltando poucos semanas para terminar o ano, acabei sendo  “rebaixado”, perdendo a condicao de monitor, e alertado que eu estava a um passo da expulsao do colegio, o que seria visto como algo muito negativo para o meu futuro, mas consegui sobreviver esta ameaca sem maiores problemas .  Em termos de estudos, foi um ano perdido.  Nao me dediquei aos livros, e as mudancas de sistemas de ensino do ingles para a americana e de volta para o ingles havia deixado lacunas em muitas areas que seriam dificeis de serem superados, mesmo que eu tivesse me esforcado.  No campo desportivo, e ate pessoal, acho ate que valeu, e ao voltar para visitar o colegio quatro anos depois, deparei com uma placa em meu homengem que os alunos mais novos haviam fixados no ponto mais alto do dormitorio – uma grande honra!

Terminado o colegio, fui passear na Irlanda durante um mes, com dois amigos do colegio.  Como tinhamos muito pouco dinheiro,dormiamos normalmente em alburguerges da juventude, mas teve dias que nao haviam vagas nos albergues e entao tinhamos que dormir em cima dos bancos dos jardins.  Para andar de um lugar para o outro,pediamos carona nos caminhoes, ou entao em carros particulares.  Antes de chegar na Irlanda, pouco conheciamos das divisoes internos no pais, mas apos um mes de vivencia haviamos feito um verdadeiro curso intensivo sobre as questoes politicos e religiosos locais.  Embora era uma epoca de relativa tranquilidade na Irlanda, o grau de animosidade existente entre os catolicos e protestantes na Irlanda do Norte era impressionante, e nao era dificil perceber que uma solucao negociada nao seria nada facil de conseguir.

Passado as ferias na Irlanda, ainda passei dois meses dando assistencia a minha avo, que ficou um tempo hospitalizada, mas depois que ela se recuperou, regressei para Brasil, e Rio de Janeiro.  A primeira coisa que fiz ao chegar foi ter aulas de portugues, para melhorar meu conhecimento gramatico e escrito da lingua, para depois procurar emprego.  Pensava inicialmente em buscar uma oportunidade no setor de turismo, onde meu ingles fluente seria util, mas antes que podia concretizar este plano, surgiu uma outra oportunidade, imperdivel, e que acabaria definindo o rumo da minha vida dali para frente.  Um dia, meu pai chegou em casa com a noticia que Hoteis Othon estava selecionando candidatos para um programa de “Trainee”, e que Alvaro Bezerra de Mello, sabendo que eu buscava uma colocacao na area de Turismo, havia perguntado se eu nao queria me candidatar.  Embora a minha primeira vocacao tinha sido trabalhar na marinha mercante, preferencialmente num navio de passageiros, a ideia de hoteis sempre tinham me fascinado.  De uma certa forma, eu via hoteis como se  fossem navios ancorados, tanto e que eu era capaz de citar de cor, e na sequencia certa, todos os hoteis existentes na Avenida Atlantica.  Fui entao fazer os testes e as entrevistas, e depois de alguns dias veiro a noticia que eu havia sido selecionado, junto com mais dois jovens, um frances, e o outro alemao.  Era impressionante, mas, na epoca, os brasileiros da classe media nao se interessavam em seguir uma carreira hoteleira, e a ideia de passar dois anos trabalhando em todoas as funcoes existentes num hotel nao atraia muitos candidatos.  Sorte minha, pois a concorrencia era pouca!  Definido a minha selecao, a primeira providencia foi tirar a carteira profissional.  Fui no Ministerio de Trabalho com toda a documentacao necesaria, e depois de algumas horas na fila de espera, chegou a minha hora de ser atendido.  “Qual e a sua profissao?”, perguntou-me  o funcionario, pois esta era uma informacao obrigatoria que constava na carteira.  “Nao tenho profissao”, respondi, “vou ser um estagiario”.  O funcionario consultou um enorme livro que estava sobre a mesa, e depois de alguns minutos me disse “Estagiario nao e profissao, entao nao serve, o que e que voce vai fazer, exatamente?”  “Vou fazer um pouco de tudo”, respondi.  “Ummm, um pouco de tudo, entao voce vai ser Auxiliar de Servicos Gerais” ele decretou, e assim recebi orgulhosomente minha primeira carteira profissional, e o mais novo “Auxiliar de Servicos Gerais” da cidade estava pronto para encarar o trabalho.